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Para sempre aterrorizante

Mariana Franco

Qual seria o filme de terror por excelência? Não “Um” filme, mas “O” filme? Se uma votação como essa fosse feita, muitos seriam os votos para O Exorcista, que há décadas é lembrado por muita gente como o filme mais assustador que já assistiram. Aliás, muitos até hoje não se aventuram a assistí-lo.

Um demônio libertado numa escavação no Oriente Médio se apossa de Regan (Linda Blair), uma menina de 12 anos que mora com a mãe (Ellen Burstyn), atriz divorciada. A garota, até então amável, passa a apresentar comportamento agressivo, falar palavras de baixo calão e fazer atos estranhos. Tida como adoentada, passa por uma série de medonhos (e provavelmente bem dolorosos!) exames na tentativa de um diagnóstico. A situação e os horrores vão evoluindo até a sua completa transformação num demônio, e à solução temporária de deixá-la amarrada à cama. Sem mais saber o que fazer, sua mãe, desesperada, recorre ao padre e psiquiatra Damien Karras (Jason Miller) para fazer o exorcismo.

O filme, tenso desde o início, é marcado mais pelo terror psicológico do que por banhos de sangue, mutilação e toda espécie de carnificina tão comuns em filmes do gênero. Todo o horror que ele inspira, talvez, se deva ao fato de o roteiro parecer mais “real” do que outros filmes de terror, de aventuras demasiadamente fantasiosas. N’O Exorcista vamos acompanhando a mãe da menina a procurar por todas as soluções possíveis até o final reconhecimento de que a filha está possuída, passando antes, pelas fases de descrença e questionamentos religiosos que seriam comuns a qualquer um de nós.

Entretanto, o filme é mesmo lembrado pelas cenas clássicas de possessão, como a que Regan desce a escada de casa feito uma aranha, ou aquela em que se masturba violentamente com um crucifixo, espalhando sangue por todos os lados e gritando com uma voz realmente demoníaca: “Deixe que Jesus te foda”.

Na fase de completa transmutação da garota, uma brava salva de palmas deve ser dada à maquiagem. Não é mais possível reconhecer as feições da menina por baixo da pele esverdeada coberta de feridas abertas e cheias de pústulas. A voz do demônio, capaz de causar arrepio na espinha, foi dublada pela atriz Mercedes McCambridge, que ingeriu ovos crus e fumou feito uma chaminé para alcançar o resultado esperado.

exo4Para aumentar a aura assustadora do filme, uma série de acontecimentos estranhos e um tanto quanto macabros aconteceram durante as filmagens e pouco depois delas, incluindo a morte de um ator e vários acidentes com a equipe de filmagens. E um detalhe a mais: o número da casa em que se realizaram as filmagens era 666. Truque de marketing ou coincidência do demo?

Comparado com os filmes de hoje (lembrem-se que esse “velhinho” já tem mais de trinta anos!), alguns dos efeitos são tão toscos que chegam a provocar riso, como os flashs de uma face do demônio branca e de olheiras vermelhas, que mais parece o Marilyn Manson (ok, não que ele não seja assustador), ou os jorros de vômito verde e espesso, mais parecidos com sopa de ervilha ou vitamina de abacate.

A todos que me perguntam, eu respondo que não tenho medo, assisto sozinha (à noite) e dou risada assistindo O Exorcista. E dou mesmo. Mas confesso que depois, TV desligada, luzes apagadas, meu pensamento ainda volta incomodamente àqueles olhos demoníacos e à música, tão característica, do filme.

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O artista e sua música

Bruno Benevides

Feito em 1988 o filme Bird transforma em filme a vida do saxofonista americano Charles Christopher Parker Jr, mais conhecido como Charlie Parker ou simplesmente Bird. Garoto negro e viciado em heroína do meio oeste americano, Parker desenvolveu uma maneira própria de tocar o saxofone e se tornou um dos maiores músicos do jazz na primeira metade do século XX.

Para o desafio de levar uma vida tão complexa para a tela nada como um gênio do cinema como o diretor Clint Eastwood, talvez o principal representante do cinema clássico americano na atualidade. Fã de jazz assumido, ele cuida para transformar os intensos 34 anos da vida de Parker em um filme coeso e sensível, que mais do que nos trazer a história de uma vida nos mostra como é um artista.

A difícil tarefa de protagonista coube a Forester Whitaker, que faz com maestria um Parker divido entre o êxtase da música e a depressão das drogas. O resultado é que o mito aqui surge como um homem comum, em eterno conflito e sem saber o caminho trilhar. Apesar de trazer diversas canções de Parker, Bird é um drama sobre a música e seus realizadores e não um musical. Ao final a dedicatória “Este filme é dedicado aos músicos do mundo inteiro” comprova que o mais importante aqui é entender a relação entre o protagonista e a música e como esta moldou o personagem.

No filme predominam os tons escuros e os ambientes fechados, dando a impressão que estamos o tempo todo dentro dos clubes de jazz onde Parker se apresentava. Dessa forma o protagonista está sempre presente e em evidência como se todo lugar servisse como palco não apenas para a sua música, mas também para a vida.

DeNiro Indomável

Túlio Bucchioni

Para muitos críticos de cinema talvez a obra-prima do diretor norte-americano Martin Scorcese, Touro Indomável permanece como referência entre os filmes de boxe e, consensualmente, como um dos clássicos dos anos oitenta. O longa conta a história do pugilista peso-médio Jake La Motta, filho de imigrantes italianos e conhecido como “The Bronx Bull”(o touro do Bronx), vivido magnificamente bem pelo ator Robert DeNiro – idealizador do projeto e principal responsável por convencer Scorcese a aceitar dirigir o filme.

Focando na rápida ascenção e queda de La Motta, talvez o grande mérito do filme seja relembrar ao espectador que, muitas vezes, o maior inimigo que possuímos pode ser nós mesmos. A força destrutiva com que o pugilista encara seus adversários transborda para fora dos ringues e atinge sua vida pessoal da mesma maneira drástica e quase que involuntária com que o protagonista vence suas lutas. Para encarnar La Motta em sua última fase no filme, DeNiro foi capaz de engordar quase 30 kg, uma transformação até então inédita no cinema, que somada ao seu empenho entusiasmado na produção e interpretação magnífica do protagonista, lhe rendeu o Oscar de melhor ator.

Touro Indomável é rodado em preto e branco e propositalmente os únicos trechos coloridos do filme aparecem durante a exibição dos filmes caseiros de 16 mm ao longo da narrativa. A trilha sonora é um grande marco do filme, assim como o roteiro de Paul Schrader que, apesar de focar principalmente nas cenas mais violentas, traduz muito bem a percepção que La Motta tem da realidade. Se por um lado talvez seja difícil se identificar com o turbulento protagonista, em contrapartida é praticamente inevitável não se emocionar com a interpretação eletrizante que DeNiro imprime ao filme.

Um Velho, Um Veículo e Uma Viagem

Lynch nos mostra que nunca é tarde para repararmos nossos erros

Victor Caputo

Uma viagem através de alguns estados do centro-norte americano, mas dessa vez sem os veículos motorizados característicos dos road movies. “Uma História Real” (Staright Story), de David Lynch, nos mostra Alvin (Richard Fansworth), um velhinho teimoso e orgulhoso que está decidido a visitar seu irmão Lyle após receber uma ligação informando-o que Lyle teve um ataque cardíaco.

Ao longo do filme, tomamos uma lição de vida de Alvin, seja quando explica o motivo de seu distanciamento do irmão ou conta um pouco mais sobre seu passado. As conversas são emocionantes.

Enquanto assistimos a Alvin viajar temos a repetição das imagens do centro agrícola americano. Apesar de belas e muito apropriadas para o filme, o diretor usa-as de modo abusivo, plantações e tratores agrícolas aparecem incontáveis vezes. Infelizmente, acaba passando a impressão de que mais idéias ou possibilidades não apareceram.

As ótimas atuações de Richard Fansworth e Sissy Spacek rendeu-os diversas indicações a prêmios, incluindo uma indicação de Oscar para Fansworth. Devo dizer que as indicações e premiações foram merecidas. Um ator muito experiente, Richard Fansworth, consegue emocionar até o mais frio dos espectadores.

“Uma História Real” merece ser visto, já que é uma lição de vida. Um velhinho simpático nos mostrará que algumas coisas devem ser deixadas de lado para que não precisemos nos distanciar de pessoas muito importantes em nossas vidas.

Eu te amo…

Bruna Buzzo

O amor é o grande tema deste magnífico filme do prestigiado diretor francês Patrice Leconte. Mas não um amor tradicional, não como estes que temos visto com tanta freqüência na tela dos cinemas. O roteiro de A Viúva de Saint Pierre nos apresenta três personagens centrais e a possibilidade de conflito entre eles. O diretor, no entanto, soube desenvolver brilhantemente a história, sem cair em nenhum clichê que poderia transformá-la em apenas mais um drama amoroso.

A história começa em 1850, na ilha de Saint Pierre, quando um homem é brutalmente assassinado e o responsável pelo crime, Neel Auguste (Emir Kusturica), é condenado à morte. Na pequena colônia francesa, porém, não há viúva (viúva, em francês veuve, que também significa guilhotina), e enquanto espera o instrumento chegar da metrópole, Neel é colocado sob a custódia do Capitão (Daniel Auteuil).

Madame La (Juliette Binoche), esposa do Capitão, preocupa-se com o destino do condenado e acredita que qualquer homem pode regenerar-se. Ela defende sua reabilitação e faz Neel realizar pequenos serviços à comunidade, os quais o tornam muito popular. O possível envolvimento amoroso da personagem de Juliette com o condenado parece preocupar todos na cidade, exceto o Capitão, que tem uma relação de total confiança e amor com a esposa.

O elenco dá vida aos personagens: cada um dos atores centrais soube entrar brilhantemente no papel e ajudar a construir um enredo atrativo e convincente. Juliette Binoque atua impecavelmente e forma com Daniel Auteuil um casal formidável: os atores nos convencem do amor de seus personagens, que exalam envolvimento e paixão. O diretor iugoslavo Emir Kusturica não decepciona em sua primeira atuação em papel de destaque e faz do condenado uma figura ingênua e cativante, digna de salvação.

Como na canção de Chico Buarque e Tom Jobim], o Capitão poderia dizer à esposa: “se entornaste a nossa sorte pelo chão” e, assim como o personagem da música, ele se rende ao amor, indo até as últimas conseqüências deste, lutando por seus ideais ao mesmo tempo em que procura agradar a esposa que tanto adora.

A trilha sonora e a fotografia também merecem destaque: as músicas e as belas tomadas completam o clima de envolvimentos e tensões – não só amorosas. Junte bons atores, um Canadá gelado e a música adequada: está feito um bom filme. Um luxo do começo ao fim. Sedutor e adorável – para saborear sozinho, ou ao lado da pessoa amada – o desafio é tentar não se envolver ou conter as lágrimas.