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O gênio do suspense no cinema filma o gênio da literatura de terror

Victor Caputo

Quando pensamos em suspense no cinema logo nos vem o nome de Stanley Kubrick. Quando o assunto é terror na literatura temos Stephen King. A pergunta é: o que acontece se Kubrick filmar um livro de King? A resposta é “O Iluminado” de 1980.

Um dos maiores filmes de terror da história do cinema. Kubrick não precisa de grandes efeitos especiais para nos deixar rígidos e aflitos enquanto assistimos ao filme. Coloque duas meninas vestidas de forma igual de pé em um corredor, corta para as duas mesmas meninas mortas e sangue por todo lado. Com certeza é mais do que o suficiente para provocar calafrios.

Jack Nicholson parece perfeito para o papel de escritor perturbado que toma conta de um hotel, apenas com a mulher e filho, isolados de todo resto do mundo. Com a sua peculiar cara de louco, principalmente lá para os finalmentes do filmes quando sua paranóia e loucura já estão bem afloradas. Impossível esquecer a expresão de maníaco com a cabeça enfiada entre os pedaços da porta despedaçada por um machado enquanto ele persegue a mulher e o filho.

Algumas mudanças leves foram feitas na adapatação às telas, algumas delas uma pena na minha opinião. Uma das cenas mais assustadoras e aflitivas do livro foi cortada e o final também foi alterado.

Entre rabiscos de RedruM, grandes volumes de sangue vindo em câmera lenta pelos corredores do hotel, quartos proibidos, muita neve e um labirinto, “O Iluminado” é ainda hoje um dos filmes mais assustadores de todos os tempos.

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Educação angustiante

Bruna Buzzo

Violência Gratuita (Funny Games U.S.) é um título bem escolhido. O filme que estreou nos cinemas esta semana é uma refilmagem norte-americana de um longa de 1998, do mesmo diretor e com o mesmo título, só que falado em alemão, francês e italiano. Os diálogos do roteiro são os mesmos, os elementos cenográficos são os mesmos e a sensação que o(s) filme(s) passa(m) é desnecessária.

Na história, dois jovens perturbados, Paul e Peter (respectivamente, Michael Pitt e Brady Corbet), invadem casas de campo de famílias ricas e promovem cenas brutais apenas por mera diversão. A junção do título original com a versão brasileira traduz bem o que é este filme: jogos divertidos para os protagonistas agressores que resultam em uma violência gratuita (tanto para o público quanto para as vítimas). E o espectador pode preferir evitar ou dispensar estas sensações no meio da sessão.

As vítimas centrais do filme são a família formada por George (Tim Roth), Ann (Naomi Watts) e Georgie (Devon Gearhart), que serve de exemplo para o problema que os dois jovens conseguem provocar partindo de um simples pedido de empréstimo de ovos. Desde o começo, o espectador percebe que há algo errado com a situação e com a roupa branca dos dois rapazes.

As cores usadas pela direção de arte neste filme fazem diversas referências ao clássico de Stanley Kubrick, Laranja Mecânica, e sua trilha sonora contribui para dar o tom de desespero da família. A angústia com que este filme o fará sair da sala de cinema, no entanto, não chega nem aos pés das reflexões que Alex nos trás no filme de Kubrick e não há nada que se compare à Singing in the Rain na voz de Malcolm McDowell. As agressões aqui são desnecessárias e o final previsível (ou a boa educação dos vilões) não é algo que nos faz sorrir.

O terror está em toda parte

Ricky Hiraoka

Nos últimos anos, poucos filmes de terror se mostraram tão eficazes quanto O Nevoeiro (The Mist). Baseado numa obra de Stephen King, o filme, em nenhum momento apela para o ridículo ou para o trash. Ele dá ótimos sustos, sem fazer qualquer concessão a efeitos de mal gosto, e também consegue ser um terror psicológico.

Após uma violenta tempestade, David (Thomas Jane) vai com seu filho ao supermercado para comprar mantimentos. Quando estão saindo do supermercado, David e outros clientes são surpreendidos por uma estranha névoa que cobre toda a cidade. Junto com outros clientes, David fica preso no estabelecimento. Aparentemente, essa névoa é apenas um efeito da tempestade da noite anterior. Entretanto, um dos moradores da cidade, que se refugia no supermercado, afirma que ela esconde algo sobrenatural que mata quem ousa enfrentá-la. Os gritos ouvidos do lado de fora comprovam essa teoria. Logo, o desespero se instala e todos tentam, da melhor maneira, enfrentar o problema.

À medida que o tempo passa, a situação fica cada vez mais tensa. Se antes o terror era representado pela criatura desconhecida que está encoberta pelo nevoeiro, aos poucos, ele vai tomando se concentrando em uma fanática religiosa (a impecável Márcia Gay Harden) que atormenta a todos, chegando a propor a morte de uma criança para acalmar a criatura do nevoeiro.

O que se vê em O Nevoeiro são os diversos setores da sociedade americana que se confrontam diante de um problema criado por eles mesmos. Questões que seriam facilmente contornadas, pelo bom senso ou pela hipocrisia, em uma situação normal se tornam insuportáveis em uma situação-limite. A intolerância passa a dominar e perde-se a capacidade de conciliar pensamentos e atitudes. O filme é uma fábula sobre a ambição e a inconseqüência humana. Em O Nevoeiro, nenhum inimigo é tão perigoso para a humanidade como o próprio homem.