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O gênio do suspense no cinema filma o gênio da literatura de terror

Victor Caputo

Quando pensamos em suspense no cinema logo nos vem o nome de Stanley Kubrick. Quando o assunto é terror na literatura temos Stephen King. A pergunta é: o que acontece se Kubrick filmar um livro de King? A resposta é “O Iluminado” de 1980.

Um dos maiores filmes de terror da história do cinema. Kubrick não precisa de grandes efeitos especiais para nos deixar rígidos e aflitos enquanto assistimos ao filme. Coloque duas meninas vestidas de forma igual de pé em um corredor, corta para as duas mesmas meninas mortas e sangue por todo lado. Com certeza é mais do que o suficiente para provocar calafrios.

Jack Nicholson parece perfeito para o papel de escritor perturbado que toma conta de um hotel, apenas com a mulher e filho, isolados de todo resto do mundo. Com a sua peculiar cara de louco, principalmente lá para os finalmentes do filmes quando sua paranóia e loucura já estão bem afloradas. Impossível esquecer a expresão de maníaco com a cabeça enfiada entre os pedaços da porta despedaçada por um machado enquanto ele persegue a mulher e o filho.

Algumas mudanças leves foram feitas na adapatação às telas, algumas delas uma pena na minha opinião. Uma das cenas mais assustadoras e aflitivas do livro foi cortada e o final também foi alterado.

Entre rabiscos de RedruM, grandes volumes de sangue vindo em câmera lenta pelos corredores do hotel, quartos proibidos, muita neve e um labirinto, “O Iluminado” é ainda hoje um dos filmes mais assustadores de todos os tempos.

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“Serei eu apenas uma laranja mecânica?”

Bruna Buzzo

Uma boa música e um belo olho azul maquiado de forma peculiar com lápis preto. O close se vai e quatro jovens aparecem em um ambiente que, no mínimo, poderíamos chamar de excêntrico. Assim começa o filme Laranja Mecânica (A Clockwork Orange), talvez a mais famosa produção de Stanley Kubrick. Adaptação do livro homônimo do escritor britânico Anthony Burgess, o filme manteve a tensão e a agonia que o livro nos passa, acrescentando a estes uma trilha sonora perturbadora, cores marcantes e boas interpretações.

O livro é dividido em três partes com sete capítulos cada: a primeira retrata as violentas ações de Alex e seus draguis em uma sociedade corrompida pela violência juvenil; a segunda mostra a prisão e o Tratamento Ludovico, uma nova técnica de repressão à violência, ao qual o jovem Alex é submetido na cadeia. A terceira parte nos mostra os resultados do tratamento sobre a vida do rapaz já liberto, privado de suas escolhas individuais e o caminho que ele tomará dali para frente.

O roteiro do filme foi produzido em cima da tradução norte americana para o romance de Burgess: mal feita, esta versão do livro cortou o último capítulo, em uma decisão arbitrária que o considerou “destoante” do resto do livro. A divisão do livro é clara e fundamentada em cima da tradição britânica de que a maturidade é atingida aos 21 anos. Deste modo, Alex, no 21º capítulo, se liberta dos vícios de sua juventude para se tornar um adulto que faz escolhas livres, conscientes e responsáveis. E foi o toque de classe que faltou ao filme de Kubrick.

Para quem conhece apenas o filme, o final diferente do livro pode ser uma surpresa, especialmente se você pensou a cena final como um retorno às barbaridades do começo da saga. Há quem considere, no entanto, que o ato sexual em público é, para Alex, uma forma que faz com ele se sinta aceito e redimido por uma sociedade que já não o censura mais. Neste caso, os finais não são tão destoantes assim, mas falta o toque de classe que transforma o jovem delinqüente em um verdadeiro lorde inglês: educado, com um bom emprego e um gosto musical refinado.

O livro faz parte do que se poderia chamar a “Trindade distópica” da literatura inglesa composta por 1984 (George Orwell), Admirável Mundo Novo (Aldous Huxley) e Laranja Mecânica (Burgess). Os três livros mostram a seus leitores um futuro catastrófico e, em muitas partes, plausível. Distopia é um processo de construção literária oposto à utopia: constrói-se um mundo no qual não se quer viver, um mundo que habita seus pesadelos e no qual você não quer acordar.

Frutos da sociedade em que seus autores viveram, os três livros nos mostram o que poderia ser de nós hoje: o primeiro deles, Admirável Mundo Novo é de 1932 e traz os reflexos da Primeira Guerra Mundial, da crise econômica de 1929 e das crises morais e religiosas por que passava a sociedade de então. 1984, escrito em 1949, carrega consigo os terríveis efeitos da Segunda Guerra e da ascensão do comunismo. Laranja Mecânica, o último da trindade na ordem cronológica, foi escrito em 1962 e, se fossemos escolher inspiradores para a obra, seriam a Guerra Fria, as transformações morais por que o mundo passava e os muitos valores que caíram durante os anos de 1950-60.

No cinema, os três livros ganharam adaptações, sendo que a única brilhante, ironicamente, foi a do livro menos notável e famoso. Dos três, Laranja é o livro menos inspirado, menos “genial”, por assim dizer, e seu filme é o melhor de todos. Juntou-se Kubrick à um bom roteiro: eis um clássico. Quanto aos outros dois filmes, nenhum brilho aparente os abençoou e foram subjugados a simples adaptações de clássicos literários para o cinema. O fato do livro de Burgess não ser tão conhecido quanto os outros dois também colaborou em muito para a celebração do titulo Laranja Mecânica como sendo “o filme de Stanley Kubrick”.

A quem foi apresentado primeiro ao livro, falta a Kubrick o carisma e a simpatia que o jovem Alex nos passa, falta a pena que o sofrimento dele nos causa no livro e, acima de tudo, falta a redenção final. Quem assiste ao filme depois de ter lido Burgess sente falta do desfecho e pensa que Kubrick voltou Alex às suas origens animais e nem sequer lança uma interpretação positiva sobre o final do filme.

Livro e filme são fantásticos. A sensação geral de ambos foi muito bem contada e Kubrick soube conferir sua genialidade nas telas à obra de Burgess munido de um bom elenco e uma cuidadosa escolha da trilha sonora. Malcolm McDowell é fantástico em sua interpretação de Alex, que no livro não passa de um garoto. Além disso, desafio qualquer espectador de Laranja Mecânica a voltar a ouvir Singing in the rain apenas como uma bela música de Frank Sinatra, sem chutes ao fundo.

Como em toda adaptação – e apesar dos 138 minutos do filme – muitas cenas foram cortadas do roteiro e algumas ordens foram invertidas. O velho mengido irlandês do começo do filme, por exemplo, é, no livro, um professor que tem seus livros rasgados e depois bate em Alex com seus colegas leitores quando ele visita uma biblioteca pública ao sair da prisão.

No entanto, a cena que mais faz falta aos leitores é o momento em que o título do livro se esclarece, fato este que em momento algum ocorre no filme. Quando agridem o escritor e sua esposa, Alex e sua gangue destroem o livro que este escrevia. Chamava-se Laranja Mecânica. Quando retorna ao “lar” ferido, a leitura de alguns trechos filosófico-reflexivos do livro causa uma terrível sensação em Alex e o faz sentir-se mal por seus atos. Aqui poderíamos encontrar o início da nova vida do garoto e encontrá-lo, no futuro, pacífico e enquadrado nos moldes de um sistema que conseguiu reprimir a violência pela ausência de nossa característica mais humana, o livre arbítrio.

Clichê sem clichê

Ricky Hiraoka

Nenhum fenômeno do mercado editorial americano é ignorado pelos estúdios hollywoodianos. Com Nicholas Sparks não poderia ser diferente. Sparks é, junto com J.K. Rowling, o único autor contemporâneo a ficar mais de um ano na lista de mais vendidos do The New York Times.Em sua curta carreira literária, quatro de suas obras foram transformadas, com grande sucesso, em filmes. O livro mais recente a ganhar as telas é Noites de Tormenta (Nights in Rodanthe), com Richard Gere e Diane Lane no elenco.

As histórias de Sparks são bem simples e abusam de clichês românticos. Entretanto, o autor tem o dom de encadear os fatos de forma que tudo pareça surpreendente e inesperado. Seu grande mérito consiste em transformar situações excessivamente exploradas em enredos originais capazes de prender a atenção dos leitores. Para isso, ele não lança mão de artifícios como cenas de suspense ou perseguições policiais. Sparks constrói meticulosamente suas personagens, expõem seus conflitos e faz com que até os leitores mais relutantes e insensíveis se envolvam nos dramas. É fácil reconhecer traços semelhantes entre os protagonistas dos livros de Sparks. O difícil é ser indiferente àquilo que eles representam: a universalidade dos sentimentos. O autor consegue falar ao coração das pessoas sem ser piegas ou cafona. Ele resgata um romantismo genuíno, atípico nas obras atuais.

Em Noites de Tormenta estão todos os elementos típicos da literatura de Sparks: personagens solitárias que tentam entender o que fizeram de errado e que desejam reconstruir suas vidas, o improvável e irresistível amor e as contas para se acertar com o passado. No filme, a divorciada interpretada por Diane Lane vai para o litoral a fim de assumir, temporariamente, a administração da pousada de uma amiga. Lá, conhece Paul (Richard Gere), único hóspede do estabelecimento, que foi ao longínquo local por motivos obscuros. Aos poucos, eles vão ganhando intimidade e passam a se olharem com outros olhos. O romance explode quando o casal fica preso na pousada durante uma terrível tempestade que assola a região. Assim como nas outras histórias de Sparks, as personagens encontram a felicidade momentaneamente, alcançando a redenção.

Ao contrário de Sparks, o diretor George C. Wolfe não consegue orquestrar os anseios e os problemas das personagens e o efeito do filme não é tão devastador quanto o livro. Além disso, não há química entre os protagonistas e Gere se limita a uma interpretação preguiçosa, reduzindo Paul ao clichê do péssimo pai que é um excelente profissional. O filme até emociona, mas não arrebata. O resultado fica aquém de outras obras de Sparks que foram adaptadas para o cinema, como Diário de Uma Paixão e Uma Carta de Amor.

Por que Saramago chorou?

Ricardo Azarite

Ensaio Sobre a Cegueira não é um filme de se fazer sorrir. Não é um filme para se olhar fixamente. Não é um filme emocionante. Não é um filme para chorar.

José Saramago sorriu. José Saramago olhou fixamente. José Saramago se emocionou. José Saramago chorou.

O livro homônimo que baseou o filme exibe um José Saramago renovado, cuja literatura se transforma num campo amorfo e sugestivo, usada para retratar, em sua narrativa, a universalidade de sua estória (ainda existe essa palavra?). Os personagens Mulher do Médico, Rapariga dos Óculos Escuros, Rapazinho Estrábico e Cão das Lágrimas (todos grafados com minúsculas no livro) são quaisquer, não têm semblantes definidos, não têm idiossincrasia, não têm história, não têm rosto.

Aliás, a literatura de maneira geral apresenta como característica marcante a esfera da possibilidade criativa; o leitor exerce dupla função: é simultaneamente aquele que lê e aquele que é co-autor da obra, estruturando cenários, feições e detalhes que fogem do papel do autor.

No lado de Saramago, o fio condutor de sua obra é o universalismo, poder ser lido e compreendido no Portugal (ou na China) de hoje, de ontem, ou de amanhã. De modo a chegar perto do aniquilamento de sim/não, autor/leitor, a literatura de Saramago é sem nome; até o Evangelho Segundo Jesus Cristo, tudo se fazia bem explicado ao leitor, a partir do Ensaio, o personagem é tão mal definido que ele pode ser – por que não? – você.

Saramago é, afinal, um humano e se faz contraditório na medida do aceitável. Sua literatura é fabulosa no sentido mais primário: ao fim do último parágrafo do livro, uma moral objetivo – e não indefinida – é passada ao leitor.

No lado de Meirelles, porém, a situação se inverte. O filme é um viés a ser mostrado a partir das escolhas do diretor. Não é à toa que Saramago foi relutante para permitir a produção cinematográfica de seu Ensaio Sobre a Cegueira. O resultado de qualquer adaptação para o telão é uma obra inédita – e pode ser catastrófica.

O desafio de Meirelles era retratar o obscurantismo e a indefinição de Saramago usando um instrumento que é, por default, mais objetivo e claro, mas ainda assim passar uma moral? E esse era justamente o medo de Saramago: seu insucesso e a perda do tom conflitante característico de sua literatura.

As lágrimas de Saramago não mentem: o filme surpreende

O uso de branco, preto e cinza; de muita luz e de reflexos servem como uma luva. Muitos dos cenários se perdem no meio-termo acinzentado, (o que eu vejo?); a luz branca recorrentemente usada (estou cego como os personagens?) gradualmente se atenua e os traços do cenário surgem; imagens refletidas põem o público em dúvida (o que é real?).

O encanto da literatura ressurge aí. O diálogo entre primeira (o filme) e segunda pessoas (o público) aparece com esse constante questionamento incitado por Meirelles; o diretor deixa de ser uma figura isolada e nos leva ao interior da narrativa – e, mantendo o enredo intacto, conserva a moral da história.

O filme consegue superar dificuldades da narrativa de Saramago de modo triunfal; a adaptação foi bem sucedida. Por isso Saramago chorou.