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Titãs, em forma, 26 anos depois

Heloísa Ribeiro

Já fazia tempo que o músico Branco Mello tinha a intenção de fazer um documentário sobre sua banda de rock, os Titãs, uma das mais importantes do Brasil. “Um dia eu vou fazer isso, vou fazer um filme”, dizia.

titas1Esse dia levou 22 anos. Mas valeu a pena. Titãs – a vida até parece uma festa estreou dia 15 de janeiro, após dar uma palhinha na 32ª Mostra Internacional de Cinema. Ao lado de Branco Mello, a co-direção do amigo e cineasta Oscar Rodrigues fez toda a diferença: “Tinha que ser um cara como o Oscar, respeitoso, talentoso, com um jeito compatível com o meu”. O titã conheceu Oscar quando este dirigiu o clipe da música Epitáfio, em 2002. Mostrou-lhe então a enorme coleção de fitas não catalogadas, que ele produziu desde que comprou a câmera, em 1986. Branco a levava nos shows, estúdios, quartos de hotéis, aeroportos, ensaios, registrando momentos vibrantes de criação e engraçadíssimos bastidores.

Junto às imagens amadoras do músico, apresentações antológicas foram recuperadas, como a do Hollywood Rock em 1988, onde os Titãs tocaram para mais de 200 mil pessoas, e a do Acústico MTV em 1997, que consagrou o aniversário de 15 anos da banda e marcou sua segunda geração de fãs. Esse Acústico vendeu mais de 1,7 milhão de cópias, o recorde do formato.

titas21Além dessas, o longa mostra diversas apresentações da banda em programas de auditório, como no Qual é a Música? de Silvio Santos e no Domingo Legal de Gugu Liberato, em que a banda encena resgatar uma fã de uma bizarra aranha gigante. Branco conta que era “um grande barato” para a banda tocar nesses programas: “A gente tocava nos buracos de São Paulo, mas tinha essa coisa em comum, de gostar dos programas de auditório. A gente achava aquilo a cara do Brasil e queria fazer parte também”.

Na quarta-feira, dia 28/1, Branco Mello e Oscar Rodrigues participaram de um debate com a plateia após sessão do filme, no HSBC Belas Artes. Ambos contaram das experiências que os levaram até a produção do filme, da perspectiva do ídolo e do fã. Oscar falou da honra de ser “convidado a interpretar o primeiro filme dos Titãs”, cuja obra sempre o emocionou. “Se já é uma responsabilidade dirigir um videoclipe, transformar em imagens as canções, com um filme isso só aumenta. Além disso, eu acho que eu nunca te falei isso antes [dirigindo-se a Branco Mello], mas é difícil co-dirigir. Um dragão de duas cabeças pode muito mais facilmente se chamuscar. Mas o Branco foi ótimo, conseguimos trabalhar com harmonia”.

Já Branco Mello desabafou que não só é difícil ser um titã, como “ser um titã contando uma história dos Titãs, do conjunto, uma banda que nasce, renasce, se reinventa o tempo todo”. Havia a preocupação de agradar aos outros integrantes, tão personagens quanto ele nessa história, mas ao mesmo tempo de “mostrar o melhor e o pior de cada um”, de ser sincero no relatar. Em busca desse equilíbrio, “A vida até parece uma festa” não se exime de mostrar momentos como a prisão por posse de drogas (e sua abusiva cobertura da mídia) de Arnaldo Antunes e Tony Bellotto e a morte do guitarrista Marcelo Fromer em 2001.

Também o consenso entre Branco e Oscar por contar uma história dos Titãs sem ordem cronológica e sem narrativa foi um passo nessa busca: “A gente resolveu fazer uma coisa pro cinema, então o bacana é chamar as pessoas pro cinema. Não é elas estarem ouvindo uma história, mas participando duma história”, explica Branco.

titas3-anos80Embora às vezes essa história possa parecer desconexa e as cenas das brincadeiras do grupo, um tanto excessivas, o filme mostra as raízes da familiaridade que os brasileiros têm com letras como Bichos escrotos e Marvin e figuras como Nando Reis e Arnaldo Antunes. Segundo Branco Mello: “Os nossos fãs de quinze anos nem sabem que o Arnaldo era um titã, veem ele como tribalista. Fãs mais novos não vão se lembrar do Nando na banda também, acho que o filme tem isso de importante, de contar isso”.

Entre passados mais e menos recentes, é divertido e emocionante acompanhar o intenso convívio de uma banda que, ao longo de 26 anos de carreira, não perdeu a juventude, a amizade e a paixão pela música e é uma das maiores inspirações e modelos da música pop brasileira.

ESTREIA: Grilo feliz, espectadores entediados

Ricky Hiraoka

Dominado pelos norte-americanos, o gênero de animação começa a dar seus primeiros passos em terras tupiniquins. O Grilo Feliz e Os Insetos Gigantes é a opção brasileira aos desenhos dos grandes estúdios de Hollywood. Diga-se a verdade, uma péssima opção. Embora seja até tecnicamente bem feito, o filme tem uma história pra lá de capenga e só servirá como distração para os pequeninos (leia-se crianças abaixo dos 5 anos que conseguem se divertir com qualquer coisa que passe numa tela grande).

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No longa dirigido por Rafael Ribas e Walbercy Ribas, um grilo cantor precisará enfrentar com ajuda de outros animais uma gangue que pirateou seu cd. Faltam ao roteiro boas piadas e personagens carismáticos (características típicas das melhores animações). Em compensação, sobram idéias a serem defendidas. Além da propaganda contra a pirataria, o filme prega o respeito as diferenças. Nada contra a proposta dos criadores da animação. A venda dessas idéias politicamente corretas poderiam ser aceitas desde que se encaixassem numa boa história. Mas o que ocorre é o extremo oposto. O enredo de O Grilo Feliz e Os Insetos Gigantes apresenta situações inconsistentes, incapazes de arrebatar a simpatia dos espectadores. Nem a dublagem das criaturazinhas ajuda o filme. Os atores escalados para a tarefa (ninguém conhecido do grande público) criaram uma voz debilóide para o grilo e seus amigos, o que dificulta ainda mais acompanhar os “diálogos”.

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A soma de todos esses problemas faz com que o filme seja responsável por uma façanha: uma animação sem a menor graça.

Luz, Câmera e Números

Márcia Scapaticio

Agir é preciso quando o assunto é possibilitar maior acesso às atividades culturais. Em estudo realizado pelo IPEA (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) e publicado em dezembro, os dados apresentados causam espanto: 91,3% dos municípios brasileiros não tinham nenhuma sala de cinema em 2006. No mesmo ano, o percentual de municípios com 2 a 5 salas de cinema era de 1,96% e a com 6 ou mais salas era de 0,49%.

Hábito

Numa situação mais específica, relacionou-se a freqüência de práticas culturais ao nível de alfabetização e posição socioeconômica. No caso da audiovisual, constatou-se que o percentual de “quem nunca vai ao cinema” é de 68%, considerando o total dos grupos sociais analisados; já o número de iletrados que nunca vão ao cinema chega a 93%. Comparando-se as classes denominadas A/B com as C/D, nunca vão ao cinema 31% do primeiro grupo, enquanto os do segundo atinge a taxa de 83%.

Os pesquisadores do IPEA constataram que a freqüência ao cinema é um pouco maior à medida que aumenta o nível de letramento, a classe e a renda. Ao tomar como ponto de partida a “retomada da produção audiovisual brasileira”, na década de 90, período no qual houve o surgimento de novos cineastas e de filmes com boa arrecadação de bilheteria e grande média de público; o “Programa Brasil Som e Imagem”, objetiva o desenvolvimento mais equilibrado da economia, associado ao audiovisual, bem como a valorização da diversidade da produção. Os dados consideram, a princípio, o fato de o número de cinemas e sua abrangência no território nacional ser muito pequena, pois apenas 8% dos municípios possuem salas de cinema no Brasil.

A pesquisa também analisou as cidades brasileiras, dividindo-as por tamanho e constatou que as cidades pequenas com cinema equivalem a 5%; nas cidades médias esse número sobe para 66% e nas cidades grandes alcança a marca de 94%. Concluiu-se que os cinemas, como tipo específico de equipamento de exibição não dá conta das necessidades sociais e simbólicas de quase todo o universo da população de menor renda.

Concorrência

É relevante observar que o estudo não menciona o suposto “declínio do cinema” e que nem a concorrência da televisão (aberta ou fechada) ou das videolocadoras contribuíram para possível crise, uma vez que, no Brasil, são vendidos 11 milhões de ingressos/ano, apesar de 90% serem para filmes estrangeiros – um bom assunto para reflexão e posterior discussão .

Outro desdobramento dessa pesquisa é a questão da distribuição, quando se verifica que 90% dos ingressos são para filmes Norte-Americanos; que 50% dos ingressos vendidos fica entre as produções de Hollywood e que 80% do mercado cinematográfico é controlado por poucas – e grandes – distribuidoras.

Por isso, é fundamental a valorização do audiovisual brasileiro e sua consolidação como indústria, a fim de reorganizar e consolidar uma distribuição nacional de qualidade. Algumas ações diferenciadas ocorrem, as chamadas “estratégias de distribuição”, como o cineclubismo, o aumento do número de salas privadas (ampliação do parque exibidor com financiamento público orçamentário, por meio de linhas de créditos estatais ou por meio de renúncia fiscal) e, também, o aumento de número de cópias por filme. Mostram-se alternativas são: criação de cotas para exibição e o uso das tvs para a exibição, tendo em vista a regulamentação do mercado nacional.

Quando falamos em resultados, os melhores e mais objetivos são os relacionados a parcerias, como, por exemplo, o Programa de Apoio à Exportação do Audiovisual de Tv e os projetos “DOCTV” e “Revelando Brasis”, (em parcerias com agentes não governamentais), além da importância da atuação institucional do fomento à produção.

Todos esses dados ilustram, de forma objetiva, os caminhos da produção cinematográfica brasileira, seus mecanismos e desdobramentos enquanto atividade cultural e arte transformadora que deve estar ao alcance dos brasileiros, independente do nível de letramento ou classe social. Eis uma barreira que só o fazer artístico pode transpor.

Selton Mello fala sobre “Feliz Natal”

Heloísa Ribeiro

Bento Santiago, o protagonista do livro Dom Casmurro de Machado de Assis, torturado pela dúvida e pela solidão, diz, em um dos poucos momentos em que a tristeza lhe vem despida de ironia: “Se só me faltassem os outros, vá; um homem consola-se mais ou menos das pessoas que perde; mas falto eu mesmo, e esta lacuna é tudo.”

Na recente estréia de Selton Mello como diretor, seu longa Feliz Natal também traz um protagonista atormentado pela lacuna de si mesmo. Caio é um homem marcado por uma tragédia, que se afastou da família e dos amigos por um longo tempo. Ele tem 40 anos, uma companheira leal e um ferro-velho no interior. Mas essa é uma estabilidade aparente: sua consciência, como o ferro-velho, está repleta de peças corroídas e desarranjadas.

selton-cameraAmbos protagonistas vêem a necessidade de “atar as duas pontas” de suas vidas. Bento reconstrói a casa de sua mãe com a esperança de “restaurar na velhice a adolescência”. Caio se dirige à festa de Natal da família para restaurar o elo entre quem ele é hoje e quem foi cinco anos atrás. Volta à capital, chegando à casa de Theo, seu irmão, um homem enredado no corporativismo e num casamento em crise. Miguel, o pai, está vivendo com uma moça de caráter ambíguo e a mãe, Mércia, está abandonada à sorte de coquetéis alcoólicos e psicotrópicos. Fabiana, sua cunhada, perdeu-se entre frustrações do casamento naufragado. Seus amigos do peito, Neto e Alex, perderam-se no tempo, consumindo-se nos vícios da juventude. Mas a simples presença de Caio nesse quebra-cabeça vai transformar a trajetória de todos, mostrando a avalanche que pequenos fatos isolados são capazes de provocar.

Diante dessa trama, a pergunta do por que de Feliz Natal ser tão melancólico não podia escapar ao bate-papo entre diretor e platéia realizado terça-feira, 16, no HSBC Belas Artes. Selton responde: “Queria falar da incomunicabilidade dentro da própria família, da necessidade de falar verdades, falar o que está pensando”.

Dos seus quase 36 anos de idade, Selton Mello já tem 28 como ator. Atuou em O Que é Isso Companheiro? (1996, Bruno Barreto), Lavoura Arcaica (2001, Luiz Fernando Carvalho) e, nos anos 2000, seus trabalhos com Guel Arraes – O Auto da Compadecida (2000), Caramuru – A invenção do Brasil (2001), Lisbela e o Prisioneiro (2003) – lhe renderam extrema popularidade e respeito. Recentemente, em O Cheiro do Ralo (2006, Heitor Dhalia) e Meu Nome não é Johnny (2007, Mauro Lima), Selton provou-se além do talento para o humor, desenvolvendo personagens, ainda que cômicos, marcados por profunda tragicidade.

Selton Mello orientando Darlene Glória durante as filmagens

Em Feliz Natal, a cumplicidade conquistada com os atores rendeu espontaneidade e confiança no retrato daqueles relacionamentos perdidos. Dispensando preparadores de elenco, Selton trabalhou com a improvisação, modificando o roteiro original ao sabor do acaso.

O acaso também lhe rendeu a idéia do ferro-velho, descoberta acidental em uma estrada de Minas Gerais, e a decisão de introduzir uma mãe, a matriarca dos males da família, que só foi tomada após uma entrevista da atriz Darlene Glória no Tarja Preta, programa do Canal Brasil que Selton dirige e edita por conta própria desde 2004. “Avisei a equipe 2 semanas antes da filmagem que o filme agora tinha uma mãe. Acharam que eu tinha pirado!”.

Com todos os sobressaltos, Selton Mello está satisfeito com a estréia: “Talvez eu tenha feito um filme que eu realmente gostaria de ter sido convidado a atuar”. Diz ainda que dirigir foi uma “experiência tão avassaladora” que ele está até menos estimulado a atuar. O que ficou maçante para ele como ator? “Nada”, responde, “Mas é muito bom poder imprimir o seu olhar, poder fazer o seu [filme]! Agora sinto que as pessoas realmente estão vendo quem eu sou.”

Com tanto talento e entusiasmo, vale a pena conferir o primeiro dos projetos de direção de Selton, que já é um dos atores mais importantes do cinema brasileiro.

Leia mais sobre Feliz Natal: https://cinefilosjjunior.wordpress.com/2008/11/22/feliz-natal/

Clichê de natal

Bruno Benevides

feliz1Celebrado com um dos principais atores de sua geração, Selton Mello é mais um a seguir uma tendência mundial e se mudar para o outro lado da câmera. Sua estréia na direção é com o longa metragem Feliz Natal, filme que foi relativamente bem sucedido em festivais pelo Brasil.

O filme é um drama familiar intimista, que tem como protagonista Caio (Leonardo Medeiros) que na véspera de Natal resolve visitar a sua família depois de anos afastados após um traumático acidente. Assim ele vai reencontrar a mãe alcoólatra Mércia (Darlene Glória) e o irmão Theo (Paulo Guarnieri), em crise no casamento com a mulher (Graziella Moretto), além do pai (Lúcio Mauro), com quem é brigado.

O principal ponto do filme são as atuações. Selton soube escolher a dedo seus atores, trazendo de volta ao cinema pessoas que estavam afastadas, como Glória e Guarnieri, e utilizando o humorista Mauro em um feliz-natal02papel que mistura drama com humor. Destaque ainda para o garoto Fabrício Reis, carismático para a idade.

O resultado final, porém, esbarra na falta de experiência de Selton. Como diretor ele comete o mesmo erro de quando atua, uma falta de sutileza. Toda cena tenta ser grandiosa e inventiva, como se todo instante fosse o momento de êxtase. O resultado é que o filme fica repetitivo, chato, pois o mais importante deixa de ser a história ou os personagens e passa a ser a grandiosidade do diretor.

Ficha Técnica: Feliz Natal (Idem), Brasil, 2008

Direção: Selton Mello

Elenco: Leonardo Medeiros, Darlene Glória, Paulo Guarnieri, Graziella Moretto, Lúcio Mauro

Duração: 100 min.

Novelão

Victor Caputo

Orquestra dos Meninos, filme de Paulo Tiago, conta a trajetória de Mozart Vieira, interpretado por Murilo Rosa. orquestraMozart, um músico de São Caetano, uma cidade próxima a Recife, começa um projeto para montar uma orquestra com crianças pobres da cidade. Consegue alguns instrumentos e um bom local para que eles ensaiem. Tudo vai bem até que alguns problemas aparecem para complicar o projeto de Mozart, como embates com políticos e acusações de abuso de um dos alunos.

Apesar do tom leve no começo do filme, diversas críticas surgem. Primeiramente expondo o empecilho colocado por políticos da cidade, com medo de que Mozart aproveitasse sua popularidade para tomar o poder deles. É culpa destes políticos que surgem as acusações de abuso de um dos alunos.

O possível abuso sexual acaba por puxar outra crítica, que é o modo como a imprensa cobriu o caso, sem uma posição certa, a imprensa parece apenas passar o que houve, sem uma aparução, talvez com medo dos políticos. Até que um jornalista aparece e tenta ajudar Mozart.

O filme perde um pouco o ritmo e acaba esbarrando nas novelas, quando vemos atores globais, como Murilo Rosa e Priscila Fantim, protagonizando um casal dos mais sem graça e química. Somado ao clima, muitas vezes, arrastado, o filme acaba sendo algo cansativo e pouco interessante, salvo as interessantes cenas dos garotos ensaiando.

Agonia de uma mulher oprimida

Bruna Buzzo

Após um grande desfile de patrocinadores, as ondas de alguma praia no Rio Grande do Sul iniciam os longos créditos de Dias e Noites, novo filme de Beto Souza, produzido e estrelado por Naura Schneider. Se o começo do longa é cansativo e os 80 minutos de ação não são tão dinâmicos, a história de Clotilde (Naura Schneider) se repete em seus dramas com os homens e a sociedade em que vive.

Baseado no livro Clô & Dias e Noites, de Sergio Jockyman (que por sua vez é baseado em uma história real), o filme conta a trajetória desta forte mulher durante 30 anos de sua vida, de 1957 até o final da década de 70. Obrigada pelos pais a se casar com Pedro Ramão (Antonio Calloni), um rico fazendeiro que esconde suas grosserias por trás de sua elevada posição social, Clô vive um casamento que se arrasta por incontáveis agressões físicas e morais.

Na trama, o desejo de Pedro por um filho homem faz com que leve a senhora Firmina (Irene Brietzke) para sua casa. Ela aplicará supersticiosas regras à vida de Clotilde para que dê a luz a um menino. Após o nascimento de Joana (Natalia Hizajim, quando menina e Nathalia Schneider, já adulta), primeira filha do casal, a vida da protagonista torna-se mais difícil e rígida, sendo submetida à presença constante e opressora de Firmina, atenta aos movimentos da moça e informando-os ao patrão.

Em meio à rigidez mítica de Firmina, a crise entre o casal se agrava e o temperamento de Pedro vai ficando cada vez mais difícil e violento. Após dar a luz ao tão desejado filho homem, Clotilde sai de casa, distanciando-se do marido e dos filhos, pelo amor dos quais lutará por toda sua vida.

O forte deste filme é a reflexão que provoca sobre a violência domestica e a opressão às mulheres. Clô é tratada pelos homens durante toda sua vida como um objeto e mercadoria. Aos amantes, entrega-se por paixão ou por dinheiro, não percebendo os interesses que alguns deles têm por trás disso. À mãe e à avó diz que com elas só aprendeu a ser esposa e não sabe viver de outro jeito.

Este filme reflete ainda sobre o contexto político e social da época e a forma como a ditadura militar influenciou a vida das pessoas. Do irmão comunista (Rafael Sieg) de Clotilde ao rico senhor (José de Abreu) que precisa exibir uma bela amante na sociedade, cria-se um retrato de época que nos permite perceber que quase nada mudou nos últimos 20 e poucos anos.

Apesar dos fatores louváveis, o filme é um pouco comum e não ultrapassa algumas barreiras reflexivas que poderiam torná-lo melhor. A trilha sonora é um pouco exagerada, mas ajuda a criar tensões em vários pontos. O charme da narração em primeira pessoa, em que Clotilde nos conta sua história, perde sua graça em alguns pontos, mas tem seus momentos de brilho com frases que revelam um pouco mais do pensamento e mentalidades da época. “Me tornei mercadoria. Não poderia voltar para o homem que me vendeu. Resolvi ficar com o que havia me comprado.”