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Titãs, em forma, 26 anos depois

Heloísa Ribeiro

Já fazia tempo que o músico Branco Mello tinha a intenção de fazer um documentário sobre sua banda de rock, os Titãs, uma das mais importantes do Brasil. “Um dia eu vou fazer isso, vou fazer um filme”, dizia.

titas1Esse dia levou 22 anos. Mas valeu a pena. Titãs – a vida até parece uma festa estreou dia 15 de janeiro, após dar uma palhinha na 32ª Mostra Internacional de Cinema. Ao lado de Branco Mello, a co-direção do amigo e cineasta Oscar Rodrigues fez toda a diferença: “Tinha que ser um cara como o Oscar, respeitoso, talentoso, com um jeito compatível com o meu”. O titã conheceu Oscar quando este dirigiu o clipe da música Epitáfio, em 2002. Mostrou-lhe então a enorme coleção de fitas não catalogadas, que ele produziu desde que comprou a câmera, em 1986. Branco a levava nos shows, estúdios, quartos de hotéis, aeroportos, ensaios, registrando momentos vibrantes de criação e engraçadíssimos bastidores.

Junto às imagens amadoras do músico, apresentações antológicas foram recuperadas, como a do Hollywood Rock em 1988, onde os Titãs tocaram para mais de 200 mil pessoas, e a do Acústico MTV em 1997, que consagrou o aniversário de 15 anos da banda e marcou sua segunda geração de fãs. Esse Acústico vendeu mais de 1,7 milhão de cópias, o recorde do formato.

titas21Além dessas, o longa mostra diversas apresentações da banda em programas de auditório, como no Qual é a Música? de Silvio Santos e no Domingo Legal de Gugu Liberato, em que a banda encena resgatar uma fã de uma bizarra aranha gigante. Branco conta que era “um grande barato” para a banda tocar nesses programas: “A gente tocava nos buracos de São Paulo, mas tinha essa coisa em comum, de gostar dos programas de auditório. A gente achava aquilo a cara do Brasil e queria fazer parte também”.

Na quarta-feira, dia 28/1, Branco Mello e Oscar Rodrigues participaram de um debate com a plateia após sessão do filme, no HSBC Belas Artes. Ambos contaram das experiências que os levaram até a produção do filme, da perspectiva do ídolo e do fã. Oscar falou da honra de ser “convidado a interpretar o primeiro filme dos Titãs”, cuja obra sempre o emocionou. “Se já é uma responsabilidade dirigir um videoclipe, transformar em imagens as canções, com um filme isso só aumenta. Além disso, eu acho que eu nunca te falei isso antes [dirigindo-se a Branco Mello], mas é difícil co-dirigir. Um dragão de duas cabeças pode muito mais facilmente se chamuscar. Mas o Branco foi ótimo, conseguimos trabalhar com harmonia”.

Já Branco Mello desabafou que não só é difícil ser um titã, como “ser um titã contando uma história dos Titãs, do conjunto, uma banda que nasce, renasce, se reinventa o tempo todo”. Havia a preocupação de agradar aos outros integrantes, tão personagens quanto ele nessa história, mas ao mesmo tempo de “mostrar o melhor e o pior de cada um”, de ser sincero no relatar. Em busca desse equilíbrio, “A vida até parece uma festa” não se exime de mostrar momentos como a prisão por posse de drogas (e sua abusiva cobertura da mídia) de Arnaldo Antunes e Tony Bellotto e a morte do guitarrista Marcelo Fromer em 2001.

Também o consenso entre Branco e Oscar por contar uma história dos Titãs sem ordem cronológica e sem narrativa foi um passo nessa busca: “A gente resolveu fazer uma coisa pro cinema, então o bacana é chamar as pessoas pro cinema. Não é elas estarem ouvindo uma história, mas participando duma história”, explica Branco.

titas3-anos80Embora às vezes essa história possa parecer desconexa e as cenas das brincadeiras do grupo, um tanto excessivas, o filme mostra as raízes da familiaridade que os brasileiros têm com letras como Bichos escrotos e Marvin e figuras como Nando Reis e Arnaldo Antunes. Segundo Branco Mello: “Os nossos fãs de quinze anos nem sabem que o Arnaldo era um titã, veem ele como tribalista. Fãs mais novos não vão se lembrar do Nando na banda também, acho que o filme tem isso de importante, de contar isso”.

Entre passados mais e menos recentes, é divertido e emocionante acompanhar o intenso convívio de uma banda que, ao longo de 26 anos de carreira, não perdeu a juventude, a amizade e a paixão pela música e é uma das maiores inspirações e modelos da música pop brasileira.

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Gomorra: retrato do capitalismo selvagem

Tulio Bucchioni

gomorra1“A Camorra, a Calabria, a Cecília são a face do que se desabituou de se chamar ‘capitalismo selvagem’” afirma Manuel da Costa Pinto, editor e crítico de cinema do jornal “Folha de S. Paulo” e um dos convidados para o debate sobre o filme “Gomorra”, na noite de quinta-feira, dia 22, na Livraria Cultura, em São Paulo. No evento estavam ainda Bruno Paes Manso, jornalista de “O Estado de S. Paulo” e Marçal Aquino, escritor e roteirista.

O filme, dirigido por Matteo Garrone, retrata a máfia italiana do sul do país e teve como inspiração o livro homônimo do escritor italiano Roberto Saviano, que conviveu com a máfia durante 26 anos. “ Saviano teve que tomar uma posição. O livro é muito mais um desabafo, um grito, uma denúnica do que uma representação propriamente dita” diz Paes Manso. “ Seu olhar sobre os fatos é o olhar de alguém que conviveu, sabe o que fala e sabe que por causa disso vai correr o risco eterno de morrer”. Atualmente Saviano encontra-se jurado de morte depois da repercussão de seu trabalho ao redor do mundo.

gomorra2Para Manuel, o livro pode ser classificado como uma literatura de testemunho, uma vez que, apesar de estar muito próximo do romance, pode ser caracterizado por uma narrativa onde uma vítima “tenta dar conta dessa realidade dramática, irrepresentável”. Em sua opinião, o filme trata de expor o horror da transformação das pessoas em objetos, da alienação, da forma mais brutal do capitalismo, o capitalismo selvagem: “que coisifica tudo”. “ O que Saviano mostra é que existe essa faceta do capitalismo na União Européia, existe ainda a coisa pura, a transformação do homem em dejeto, em nada, o que caracteriza o livro todo”.

Marçal chama atenção para a extrema veracidade que o filme transpassa ao espectador e que traz semelhanças com o neorealismo italiano: “ o grau de realidade não poderia ser diferente, trata-se de um documento, aquilo que vemos na tela é verdade e acontece; o filme de Garrone se aproxima muito do neorealismo italiano”. O escritor e roteirista consegue ainda identificar uma semelhança entre “Gomorra” e “Cidade de Deus”, do brasileiro Fernando Meirelles: “ a felicidade da adaptação é terem sido tiradas do livro algumas histórias representativas; o filme lembra o Cidade de Deus por várias razões, é um mosaico com milhares de histórias e personagens, não é a toa que o filme tem 6 roteiristas”. Paes Manso concorda, mas ressalta que em “Cidade de Deus” não há o posicionamento evidente de “Gomorra”; para Manuel, “Gomorra” não possui “respiro, cor local como ‘Cidade de Deus’”.

gomorra3Traçando um parelelo com Hollywood e depois com São Paulo, Marçal afirma que o filme “não se parece em nada com o cinema hollywoodiano, onde o bandido é bonitão, o que é um dos acertos desse filme, pegar atores próximos da realidade”. No que Manuel concorda: “ todos os ambientes são de uma periferia decadente em que tudo é dejeto, tudo é desglamourizado, ‘Don Corleone’ é só nas telas”. Referindo-se a São Paulo, Marçal aponta que a diferença está na “estrutura quase secular existente em ‘Gomorra’, onde tudo está misturado ao mesmo tempo e os tentáculos do crime estão onde menos se pode esperar, desde a coisa mínima até a coisa grande”. Paes Manso concorda, mas lembra o surgimento do PCC (Primeiro Comando da Capital) como um dado a ser levado em consideração na nova realidade do crime em São Paulo. “ O aspecto institucional e a forma como em ‘Gomorra’ a máfia comanda a cidade é impressionante; hoje em São Paulo faz 8, 9 anos que os homícidios despencaram, mas nesse cenário aparece o PCC, que funciona como um intermédio, um juíz desses conflitos [entre mafiosos, bandidos e civis], sendo uma grande instituição”.

A deterioração das relações sociais é apontada por Manuel como o principal fator para a formação e a crueldade empregada pelas instituições mafiosas. “ É uma forma pura de aniquilação social, o filme poderia se passar em qualquer periferia de uma cidade grande do mundo; esse é o lado sombrio do capitalismo global.”

Leia mais sobre o filme Gomorra: https://cinefilosjjunior.wordpress.com/gomorra/

Selton Mello fala sobre “Feliz Natal”

Heloísa Ribeiro

Bento Santiago, o protagonista do livro Dom Casmurro de Machado de Assis, torturado pela dúvida e pela solidão, diz, em um dos poucos momentos em que a tristeza lhe vem despida de ironia: “Se só me faltassem os outros, vá; um homem consola-se mais ou menos das pessoas que perde; mas falto eu mesmo, e esta lacuna é tudo.”

Na recente estréia de Selton Mello como diretor, seu longa Feliz Natal também traz um protagonista atormentado pela lacuna de si mesmo. Caio é um homem marcado por uma tragédia, que se afastou da família e dos amigos por um longo tempo. Ele tem 40 anos, uma companheira leal e um ferro-velho no interior. Mas essa é uma estabilidade aparente: sua consciência, como o ferro-velho, está repleta de peças corroídas e desarranjadas.

selton-cameraAmbos protagonistas vêem a necessidade de “atar as duas pontas” de suas vidas. Bento reconstrói a casa de sua mãe com a esperança de “restaurar na velhice a adolescência”. Caio se dirige à festa de Natal da família para restaurar o elo entre quem ele é hoje e quem foi cinco anos atrás. Volta à capital, chegando à casa de Theo, seu irmão, um homem enredado no corporativismo e num casamento em crise. Miguel, o pai, está vivendo com uma moça de caráter ambíguo e a mãe, Mércia, está abandonada à sorte de coquetéis alcoólicos e psicotrópicos. Fabiana, sua cunhada, perdeu-se entre frustrações do casamento naufragado. Seus amigos do peito, Neto e Alex, perderam-se no tempo, consumindo-se nos vícios da juventude. Mas a simples presença de Caio nesse quebra-cabeça vai transformar a trajetória de todos, mostrando a avalanche que pequenos fatos isolados são capazes de provocar.

Diante dessa trama, a pergunta do por que de Feliz Natal ser tão melancólico não podia escapar ao bate-papo entre diretor e platéia realizado terça-feira, 16, no HSBC Belas Artes. Selton responde: “Queria falar da incomunicabilidade dentro da própria família, da necessidade de falar verdades, falar o que está pensando”.

Dos seus quase 36 anos de idade, Selton Mello já tem 28 como ator. Atuou em O Que é Isso Companheiro? (1996, Bruno Barreto), Lavoura Arcaica (2001, Luiz Fernando Carvalho) e, nos anos 2000, seus trabalhos com Guel Arraes – O Auto da Compadecida (2000), Caramuru – A invenção do Brasil (2001), Lisbela e o Prisioneiro (2003) – lhe renderam extrema popularidade e respeito. Recentemente, em O Cheiro do Ralo (2006, Heitor Dhalia) e Meu Nome não é Johnny (2007, Mauro Lima), Selton provou-se além do talento para o humor, desenvolvendo personagens, ainda que cômicos, marcados por profunda tragicidade.

Selton Mello orientando Darlene Glória durante as filmagens

Em Feliz Natal, a cumplicidade conquistada com os atores rendeu espontaneidade e confiança no retrato daqueles relacionamentos perdidos. Dispensando preparadores de elenco, Selton trabalhou com a improvisação, modificando o roteiro original ao sabor do acaso.

O acaso também lhe rendeu a idéia do ferro-velho, descoberta acidental em uma estrada de Minas Gerais, e a decisão de introduzir uma mãe, a matriarca dos males da família, que só foi tomada após uma entrevista da atriz Darlene Glória no Tarja Preta, programa do Canal Brasil que Selton dirige e edita por conta própria desde 2004. “Avisei a equipe 2 semanas antes da filmagem que o filme agora tinha uma mãe. Acharam que eu tinha pirado!”.

Com todos os sobressaltos, Selton Mello está satisfeito com a estréia: “Talvez eu tenha feito um filme que eu realmente gostaria de ter sido convidado a atuar”. Diz ainda que dirigir foi uma “experiência tão avassaladora” que ele está até menos estimulado a atuar. O que ficou maçante para ele como ator? “Nada”, responde, “Mas é muito bom poder imprimir o seu olhar, poder fazer o seu [filme]! Agora sinto que as pessoas realmente estão vendo quem eu sou.”

Com tanto talento e entusiasmo, vale a pena conferir o primeiro dos projetos de direção de Selton, que já é um dos atores mais importantes do cinema brasileiro.

Leia mais sobre Feliz Natal: https://cinefilosjjunior.wordpress.com/2008/11/22/feliz-natal/

O Homem Por Trás da Imagem

Tulio Bucchioni

“Tentamos mostrar o homem por trás da imagem e fomos bem-sucedidos em fazer um filme sobre o ser humano em Che” declara Laura Bickford, produra do filme “Che”, que encerrou a 32ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, na última quinta-feira, dia 31.

Se apresentaram ainda para uma platéia lotada de jornalistas os atores Benício Del Toro, que vive Ernesto “Che” Guevara no longa (papel que lhe rendeu o prêmio de melhor ator no Festival de Cannes de 2008), o brasileiro Rodrigo Santoro, que interpreta o irmão de Fidel Castro, Raúl Castro, e Diego Halari, representante da Sun Distributions, empresa responsável pela distribuição do filme no Brasil.

Benicio del Toro como Che Guevara no filme de Soderberg

Benício del Toro como Che Guevara no filme de Soderberg

“Che” conta com atores de toda a América Latina e até ganhar seu formato de hoje 4 anos se passaram. Para a realização do filme, o diretor, o americano Steve Soderbergh, junto com a produtora Laura e Del Toro, viajou para a França, Argentina e Cuba, aonde foram feitos estudos detalhados sobre a vida de Che. “ Fizemos um estudo em muitas partes do mundo com pessoas que conheceram Che; esse estudo influenciou muito no filme e foi um investimento de 6, 7 anos” aponta Del Toro.

O filme foi filmado no México, em Porto Rico, nos Estados Unidos, na Bolívia e na Espanha. De acordo com Laura, trata-se de um filme espanhól que não obteve patrocínio algum dos EUA. A equipe não pôde filmar em Cuba devido ao embargo norte-americano à ilha. A produtora afirmou também que a escalação de atores foi espontânea: “atores que já conhecíamos vieram nos procurar e ao longo do processo encontramos também muitos novos atores latino-americanos maravilhosos”. Santoro entrou na equipe da primeira maneira.

O ator contou que “Che” foi um dos primeiros projetos que conheceu no exterior e logo após ter lido o roteiro se encontrou com a produtora e ficou estimulado e apaixonado pelo projeto. “ No ano passado fiquei sabendo que o projeto tinha saído, foi então que entrei em contato com a Laura novamente, passei a estudar espanhól e finalmente consegui uma entrevista com o Steve, após ter perdido a primeira entrevista de escalação de atores por motivos profissionais” conta o brasileiro. A entrada de Santoro no filme não foi tão rápida. “ Sonhei em fazer parte da equipe por 5 anos, estava disposto a fazer qualquer coisa para participar do projeto”. Foi Laura quem ajudou o ator a entrar no filme. Já havia um ator escalado para interpretar Raúl Castro, mas após tanta insistência, a produtora e Soderbergh ficaram tocados com a vontade e disposição de Santoro. “ Eu até brinquei com eles: o maior país da América Latina é o Brasil, como vocês ainda não escalaram um brasileiro no elenco?” diverte-se o ator.

E deu certo. Seu personagem, que teria apenas uma fala, terminou com várias. O processo de composição do personagem foi longo, Santoro teve 1 mês e meio de aulas de espanhól todos os dias com um professor cubano e só depois desse período viajou para Cuba. “ Realizei um sonho, fui para tentar entender a cultura, o povo, tentar entender o que é ser um cubano. Fui para passar 10, 15 dias e acabei ficando 1 mês e meio. Andei por toda a ilha e procurei manter uma pureza no olhar. Tive muito suporte das pessoas. Foi uma experiência de vida muito forte”.

Del Toro, um dos idealizadores do projeto e também produtor executivo, afirmou se impressionar com a combinação de intelectual e “homem de ação” que percebe em Che. “ Quase tudo me desafiava no personagem; Che é um produto da história da América Latina” declara o ator. Quando questionado sobre seu primeiro contato com Guevara, Del Toro declarou ter ouvido seu nome um pouco tarde. “ Nasci em Porto Rico, onde se estuda muito pouco a revolução cubana ou Che; a primeira vez que ouvi seu nome foi através de uma canção dos Rolling Stones. Os jovens não usam a camiseta de Che. Depois li uma carta de Che para sua família e a carta me comoveu muito, Che era um ótimo escritor.”

Fazendo uma possível relação entre a América Latina dos anos 60 e a atual, Laura afirmou acreditar que o sofrimento, a injustiça e a fome ainda estão presentes. “ Os valores de Che são universais e o filme tenta levantá-los; a questão é como implementá-los de uma forma diferenciada. O objetivo do filme é levantá-los novamente” diz a produtora. Sobre as filmagens na Bolívia, Laura afirmou que a experiência de filmagem foi tocante e comovente e apesar dos períodos díficeis enfrentados, em virtude do conflito entre governo e oposição no país, a interação da população com a equipe foi excelente. Discorrendo sobre o filme, a produtora conclui: “ o filme serve como uma inspiração metafórica, poética, espero que o Che não tenha morrido em vão”. “Che” chega ao circuito comercial no primeiro semestre de 2009.

Os desafios de um cineasta

Bruno Benevides

O cineasta Roberto Moreira está há mais de 20 anos trabalhando na área e já dirigiu o longa Contra Todos, curtas metragens e trabalhos para a TV, além de ser professor do curso de Audiovisual da USP. Mesmo assim ele ainda encontra dificuldades para realizar novos trabalhos como seu próximo filme Condomínio Jaqueline, atualmente em pós-produção. Foi durante a preparação para seu segundo longa que Roberto Moreira respondeu algumas perguntas por e-mail, nas quais defendeu a qualidade dos cursos de cinema ministrados no país e criticou o mercado cinematográfico brasileiro.

O senhor é formado em cinema. Qual a importância disso para um cineasta?

Roberto Moreira: O essencial é praticar e o curso é uma ótima oportunidade, além de ser uma chance para encontrar as pessoas da sua geração.

Como o senhor avalia que as faculdades de cinema e os cursos complementares no Brasil são satisfatórios ou é necessário recorrer a cursos no exterior para complementar a formação?

RM: Acho os brasileiros mais do que suficientes. Há muita ilusão com respeito aos cursos no exterior. Sabe como é, o gramado do vizinho sempre é mais verde. Agora, viajar é muito bom, sempre abre novos horizontes. Só não acho imprecindível.

Os cursos de cinema estão bastante procurados atualmente. O senhor acha que isso será positivo para o setor, trazendo profissionais qualificados?

RM: É bom porque qualifica mais pessoas, mas o mercado é limitado, ou seja, a concorrência é grande. Talvez esse mercado cresça no futuro próximo com todas essas tecnologias que estão chegando. Enfim, para a atividade é bom, já para os recém formados…

Como foi seu início como cineasta? Quais as dificuldades que o senhor enfrentou antes de fazer seu primeiro longa?

RM: A maior dificuldade foi o senhor Collor de Mello que acabou com o cinema brasileiro e postergou em dez anos o acesso da minha geração ao cinema. Hoje é bem mais fácil, mesmo porque a tecnologia democratizou o acesso aos meios de produção. No entanto, também é importante ter uma proposta original, uma contribuição pessoal, e isso as vezes demora para formular.

O senhor costuma fazer o roteiro de seus trabalhos. Acha isso importante? O senhor filmaria o roteiro de outra pessoa?

RM: Filmaria, desde que me sentisse tocado pelo tema. Mas a verdade é que tenho vários temas que gostaria de tratar e acho mais fácil sentar e escrever eu mesmo o roteiro.

O senhor é sócio de uma produtora. Qual é seu papel como produtor? É difícil separar seu lado produtor do seu lado diretor ou eles se complementam?

RM: Eu tenho uma sócia, Geórgia Araujo, que é a produtora. Mas eu penso sim como produtor e acho que todo diretor no Brasil precisa estar atento às questões de produção. Nós lidamos o tempo todo com limitações.

O senhor costuma atuar em diferentes áreas do cinema, escreve dirige, produz e dá aulas. Isto é uma necessidade do mercado? É possível sobreviver atuando em apenas uma área do cinema?

RM: Olha, todo mundo tem que se virar. Muitos fazem publicidade, outros documentários. É mesmo uma batalha.

Qual a diferença entre fazer um filme para o cinema e para a televisão? Em qual dos dois meios o senhor prefere para trabalhar?

RM: A diferença está no acesso instantâneo que temos ao público na TV. A série é entregue e uma semana depois milhões de pessoas estão assistindo seu episódio. No caso do cinema o esforço de lançamento é enorme e não se tem garantia nenhuma de que as pessoas assistam ao filme.

Até 2004 o senhor era professor da USP em regime de dedicação exclusiva, mas desde então o senhor diminui a carga horária. Isto significa que o senhor está se dedicando mais a realização de longas metragens e outros trabalhos?

RM: Sim. O filme Contra Todos gerou várias oportunidades que exigiram de mim maior atenção. No entanto, a longo prazo gostaria de voltar a dedicação exclusiva, afinal vejo as filmagens como uma atividade de pesquisa. A cada filme exploro novas técnicas e isso melhora minha docência e alimenta meus trabalhos acadêmicos.

Em uma entrevista em 2004 para o UOL o senhor declarou que seu projeto seguinte era fazer um filme baseado no personagem “Soninha” de Contra Todos. Quatro anos depois o filme está em pré-produção. Este intervalo foi escolha sua ou o senhor encontrou dificuldades para produzir o filme?

RM: Não foi uma escolha. Ganhei praticamente todos os prêmios de financiamento e, ainda assim, não completei meu orçamento. Os patrocínios estão com valores muito baixos em relação ao custo do filme. Essa é uma armadilha que precisamos desmontar. A engrenagem do cinema tem que rodar com maior velocidade.

Próximo passo: o Evangelho?

Ricardo Azarite

Durante a coletiva de imprensa que foi concedida pela Fox Filmes do Brasil, Fernando Meirelles disse que Saramago, depois de ter chorado de emoção ao ver a produção de seu Ensaio sobre a cegueira nas telonas, afirmou que venderia os direitos de outros livros seus para o diretor gravar novos filmes.

Talvez seja apenas simpatia de José Saramago. E talvez nem seja o desejo de Fernando Meirelles – pelo que disse na coletiva, não por ora.

A produção do Ensaio foi morosa e demorou um total de dez anos: nos sete primeiros, o produtor canadense Niv Fichman e o bifuncional roteirista/ator Don McKeller adaptaram a narrativa para os formes cinematográficos e começaram a procurar pelo pessoal mais capacitado para fazer o filme; os últimos três anos foram de filmagens e produções.

Logo após da escolha de Fernando Meirelles no cargo de diretor, a boa notícia veio: 60% do custo do filme seríamos bancados por uma produtora japonesa (aí se explica a co-produção Brasil/Canadá/Japão). Os obstáculos de roteiro e produção estavam superados, mas ainda faltava um: o de atuar como as personagens no livro.

Julianne Moore, a protagonista do filme, disse que essa foi uma personagem bem difícil de se fazer. Inicialmente, achou a linguagem de Saramago fabulosa e muito lúcida, “ele descreve a relação entre os personagens de maneira bem real”. Para a atriz, encarnar o papel de uma mulher sem história é muito difícil, pois esse tom indeterminado que o livro traz deve ser passado para o espectador. “Na vida, o primeiro contato com uma pessoa não traz seu histórico, o meu julgamento será feito a partir desse indeterminado que ela é”, diz Julianne.

Por mais contraditório que possa parecer, trazer características essencialmente humanas para o cinema é uma tarefa difícil. Julianne diz que é comum, nos filmes, haver sempre o bonzinho que salvará todos do mal, mas, diz ela, “eu [se referindo a sua personagem] não sou o Batman! Não sou o salvador”. O natural, diz, é que o humano vá “gradualmente se adaptando às necessidades impostas, o que geraria, por ordem do acaso, um herói”.

Dificuldades à parte, todos os presentes na coletiva (Fernando, Alice Braga, Julianne Moore e seis produtores) se dizem honrados de participarem do filme. O diretor em especial, por ter obtido sucesso nesse que foi considerado o mais ousado filme de sua carreira, por se tratar de uma ficção de Saramago (O Jardineiro Fiel e Cidade de Deus eram “quase que documentários; com personagens mais definidos”, comenta).

Agora, depois de tanto suor para conseguir sucesso no Ensaio, Fernando Meirelles irá se dedicar a uma minissérie da Rede Globo e diz que pretende, num futuro próximo, dirigir apenas produções internacionais no cinema ou programas televisivos nacionais.

Um filme para se ver com o coração

Ricky Hiraoka

Estréia sexta-feira (25/07) Era Uma Vez, o novo filme de Breno Silveira, diretor de Dois Filhos de Francisco. Em sua segunda produção, Silveira aborda um tema recorrente no cinema nacional: a violência na periferia das grandes cidades. Diferentemente de Cidade de Deus e Tropa de Elite, Era Uma Vez retrata esse problema sob a ótica do amor. “Não só o amor Romeu e Julieta, mas o amor de irmãos, amor de pai” enfatiza o diretor.

Era Uma Vez é um velho projeto do diretor. “Eu queria escrever sobre um garoto que, apesar de tudo que enfrenta, teima em ser bom”. Dessa vontade, nasceu A História de Dé, a primeira versão de Era Uma Vez. Quando se preparava para tornar A História de Dé seu primeiro filme, Silveira foi convidado para dirigir Dois Filhos de Francisco. Segundo o cineasta, a cinebiografia dos irmãos Camargo mostrou que ele gostava de falar através do coração. Isso fez com que ele modificasse o projeto original de A História de Dé a fim de injetar maior emoção no roteiro.

Elenco

Com as mudanças concluídas, Silveira iniciou a busca por seus protagonistas: Dé, o garoto do Morro do Cantagalo, e Nina, a jovem de classe média alta. “O processo de escolha de elenco é um processo de achar almas parecidas” diz o cineasta. Foram necessários seis testes para que Thiago Martins convencesse Silveira que sua alma e a da Dé eram semelhantes. Thiago se interessou em interpretar Dé, pois acreditava que o enredo de Era Uma Vez retratava a história de um trabalhador. “Meu maior orgulho foi representar 90% da população da favela, gente honesta” concluiu Thiago.

A estreante Vitória Frate também demorou a conseguir provar que estava apta para interpretar Nina. De acordo com Silveira, Vitória ganhou o papel por representar sem exageros, “com uma economia no olhar”. Para a atriz, não foi difícil interpretar Nina. “As personagens não estão distantes. É preciso entender o olhar de cada personagem” diz Vitória.

Se Thiago e Vitória não encontraram dificuldade com suas personagens, o mesmo não ocorreu com Rocco Pitanga. Interpretando o traficante Carlão, Pitanga afirma que foi muito complicado atuar sem ser over e sem cair no estereotipo. O atore defende os atos da personagem. “Carlão só mudou de conduta por falta de opção. Ele é um produto do meio”.

Final polêmico

Sobre o final do filme, que foi criticado em exibições testes, Silveira defende seu ponto de vista. “O fim é extremamente poético. (O filme) É uma fábula falando sobre o real. Temos uma licença poética para aquele fim”.