Arquivo do mês: dezembro 2008

Um amigo por uma farda

Bruna Buzzo

John Halder (Viggo Mortensen) é o Um Homem Bom (Good) do diretor brasileiro Vicente Amorim. O filme destaca a interferência que as escolhas tem sobre a vida de cada um de nós. Na Alemanha dos anos 20-30, um-homem-bom4Halder é um professor universitário que, por influência da mãe doente e da esposa neurótica, escreve um livro em que defende a eutanásia como medida humanitária. Ao descobrirem o livro, o autor cai nas graças dos nazistas e passa a ser cooptado por eles.

A princípio, Halder hesita em se envolver com política, apesar dos apelos do sogro, e se mantém sem filiação ao partido nacional-socialista em ascensão no poder. Com o tempo, no entanto, percebe que para progredir em sua carreira na universidade e melhorar sua condição financeira precisa filiar-se ao partido e procura fazê-lo de maneira apenas simbólica. Conforme a maquiagem providencia rugas ao ator Viggo Mortensen, e apesar dos apelos de Maurice (Jason Isaacs), o melhor amigo judeu, Halder vai se enredando pela teia nazista e ganhando prestígio (e dinheiro) dentro do partido.

A história busca revelar como as pessoas boas (ou simplesmente comuns) colaboraram para a ascensão e sustentação do regime de Hitler em uma Alemanha destruída pelas crises decorrentes da 1ª Guerra Mundial. O filme se passa às portas da 2ª Guerra e acompanha o período de crescimento do regime e da ideologia nazista.

um-homem-bom1Filmado em uma Budapeste disfarçada de Berlim, falado em inglês e com um elenco e equipe técnica de vários países (do protagonista norte-americano ao diretor brasileiro, passando por coadjuvantes britânicos e escoceses), pode parecer meio forçado que alemães só falem alemão de vez em quando (alguns oficiais, raramente, falam em alemão), mas o filme consegue se sustentar em sua história.

A produtora inglesa Miriam Segal foi buscar no diretor brasileiro Vicente Amorim uma mente livre de idéias pré-concebidas ou bagagem emocional, ajudada pelo fato dos diretores latinos estarem, na palavras de Vicente, “na crista da onda”.

Das pequenas esquizofrenias do protagonista, que pensa ouvir músicas em alguns momentos, às loucuras do país em que se encontram nossos personagens, as histórias que todos nós já conhecemos de tantos outros filmes sobre a 2ª GM e o Nazismo ganham um novo brilho sob os olhos, em especial, do fascinante elenco, que dá vida ao povo alemão, tão enganado e ao mesmo tempo tão consciente. Um destaque especial para Maurice, que tenta avisar seu amigo enquanto ele se metia em uma fria. Enganado por suas próprias escolhas, Halder veste o uniforme, se despede do amigo e das esposas que teve ao longo dos anos, e acorda na vida real.

O enorme tango e a esquecida cidade

Felipe Maia

O tango é um gênero grandiloqüente. Os arranjos envolvem quem o escuta com sensibilidade; os metais sutilmente abraçam o corpo; e o choro do bandoneão (espécie de acordeom) entra por todos os poros, não só pelo ouvido. Em certo momento, no filme Café dos Maestros (Cafe de Los Maestros, 2008), um dos “tangueros” diz que, cafe-maestrosse ao escutar o tango, o seu coração não palpitar de maneira diferente, então que vá fazer outra coisa. Esse novo ritmo no peito só se explica porque, como qualquer música, o tango traz lembranças, imagens e sentimentos. No filme, a música traz uma Argentina como um eco longínquo, quase imperceptível. Sobra tango, falta o nosso rival.

Reunir os antigos músicos de bailes e festas da dourada Buenos Aires dos anos 20 é um projeto que data de 2005. Ao fim deste ano, acontece uma apresentação única com todos os senhores e senhoras no famoso teatro Cólon. Esse é o ponto alto do filme, para o qual caminhamos após ensaios e depoimentos. A projeção se faz como uma melodia cativante, que atrai qualquer um que admire boa música. Infelizmente, uma bela canção no formato MP3 e tocada num player barato: perde-se em qualidade e detalhes, isto é, não se escuta Buenos Aires. A Buenos Aires de ar europeu, do futebol e da Bombonera, de uma época requintada e glamurosa e que nos presenteou com o tango, “nacido en el suburbio que hoy reina en todo el mundo”, como nos diz La Canción de Buenos Aires.

Não se pode negar, contudo, que esta foi uma empreitada feliz. Talvez a maior vontade na produção do filme tenha sido trazer o tango ao espectador, não só como ritmo, mas como registro histórico e social. E isso foi em grande parte conseguido por culpa dos depoimentos. O documentário tem o dedo de Walter Salles — e também o apoio da Ancine — e é dirigido por Miguel Kohan, embora o grande maestro da obra seja o produtor Gustavo Santaolalla: é ele o idealizador do projeto. Diz Santaolalla que houve preocupação em desvincular o tango de uma imagem turística da cidade, de dançarinos pelas esquinas e ruas realizando apresentações mirabolantes. Em prol disso, foram-se também as ruas, esquinas e muito do espírito tanguero, de sua origem, de sua essência: Buenos Aires.

Sem glamour, sem beleza

Ricky Hiraoka

Faz parte do imaginário mundial a idéia dos franceses como sendo um povo chique, belo, elegante e, acima de tudo, glamoroso. Os filmes nunca fizeram nada para mudar ou acabar com essa imagem que vem sendo cultivada há séculos.


O drama Félix e Lola tenta desmontar esse e outros lugares comuns. Todas as ações se desenrolam num parque de diversões cuja principal característica é o semblante agoniado e melancólico dos funcionários. Ali, ao contrário do que era de se esperar, não há sinais de alegrias ou risadas. Todos parecem carregar o peso do dever de divertir os outros. Não há nem o glamour, nem o luxo que costumamos a ver nos filmes franceses. Os atores e as locações são simples, para não dizer feios.


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Nesse cenário, o vendedor de fichas Felix (Philippe Torreton) encontra a misteriosa Lola (Charlotte Gainsbourg). A atração que ele sente pela morena dos olhos tristes é imediata e só não é consumada porque Lola se mostra um tanto reticente, não querendo se envolver. Logo, Félix percebe que Lola esconde um segredo que os impede de ficar juntos. Um homem de meia-idade começa a perseguir Lola e Félix liga os pontos, concluindo o óbvio. Ela conta seus segredos e ele promete ajudá-la. Nesse momento, o filme parece que vai degringolar e se tornar um suspensezinho vagabundo como muitos já produzidos, mas não é bem isso que acontece.


lolaA medida que a história avança, compreende-se que nem tudo é o que parece e que não se pode confiar na narrativa de quem está desesperado. E essa falta de confiança só ocorre porque tanto Félix quanto Lola são reais, pessoas que poderiam ser nossos amigos, vizinhos ou parentes. O que eles vivem é crível e bem diferente dos dramas que costumamos assistir nas telonas.


Félix e Lola é uma obra naturalista, quase documental, seja pela fotografia, seja pelas interpretações contidas. Mais do que isso, Félix e Lola é uma indagação: precisamos de fortes emoções para nos sentirmos vivos?


Fantasmas do passado

Bruna Buzzo

Um Conto de Natal (Un Conte de Noel) não é um filme leve, desses que talvez você deseje assistir no dia 25, envolto pelo espírito natalino que te deixou cheio de bons pensamentos e esperanças para o ano que se aproxima. Se o Natal tem este poder redentor, assistir a este filme com roteiro de Emmanuel Bourdieu e Arnaud Desplechin nesta quinta-feira pode lhe causar certo desconforto.

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Este é um filme como poucos: seus 150 minutos passam de forma rápida, quase imperceptível. A história é envolvente e os personagens vão se revelando aos poucos, em suas nuances e particularidades. Da fantástica Catherine Deneuve aos pequenos irmãos Thomas e Clémente Obled (Basile e Baptiste, filhos de Ivan e Sylvia (Chiara Mastroianni)), o elenco dirigido por Arnaud Desplechin atua de forma brilhante, construindo um cenário familiar às vezes desolador, às vezes esperançoso.

O enredo poderia ser a história de qualquer família normal, recheada por uma pitada de tristes coincidências. Junon (Catherine Deneuve) e Abel Vuillard (Jean-Paul Roussillon) tiveram 4 filhos. Joseph, o primogênito, morreu aos 6 anos de idade, vítima de um raro distúrbio genético onde sua única salvação seria um transplante de medula, porém, nenhum dos membros de sua família era compatível. Ficando como irmã mais velha, Elizabeth (Anne Consigny) não se entende com o irmão Henri (Mathieu Amalric), que foi concebido como última esperança de compatibilidade para salvar a vida de Joseph, mas o menino morre antes que este seja possível. Depois veio o jovem Ivan (Melvil Poupaud), que nasceu após toda a tragédia familiar, uma esperança de vida nova.

um-conto-natal2A história gira em torno de uma noite de Natal que reúne toda a família após anos de um afastamento imposto a Henri por sua irmã mais velha. O motivo de tal reunião é a doença com a qual a matriarca da família é diagnosticada: Junon tem o mesmo problema de seu primeiro filho e precisa de um transplante de medula. A família toda (inclusive os pequenos filhos de Ivan) se mobiliza para fazer os exames de compatibilidade e, no Natal, os problemas familiares serão expostos à mesa, com toda a sensibilidade própria aos filmes franceses. Os fantasmas do passado se revelam nos olhares trocados entre os personagens, no triste perambular de Elizabeth pela casa.

O Natal dos Vuillard não tem a melancolia de uma avó com a vida ameaçada, nem terríveis barracos de irmãos que se odeiam. Os ódios são tratados de forma mais seca, irônica, cínica. Os personagens, mesmo os pequenos Basile e Baptiste, compõem um quadro familiar povoado de intrigas. Seja entre irmãos, cônjuges, mãe e filho ou falando das antigas mágoas entre Ivan e seu primo Simon, a família e sua unidade são questionadas e exploradas, sem dramas emocionais, com uma frieza psicológica que sabe conter as emoções e colocar o foco deste filme na instabilidade da vida que dispensa esclarecimentos finais.

O Haiti não é (apenas) aqui

Martina Cavalcanti

Jovens e crianças pobres participam do tráfico de substâncias ilícitas para ascenderem socialmente. Disputa entre facções rivais por pontos de drogas colocam a vida de moradores de comunidades carentes em risco. Mão-de-obra é explorada na produção têxtil de falsificações. Pessoas são contaminadas ao fazerem transporte ilegal de resíduos tóxicos.

Manchetes como essas poderiam ser vistas facilmente em qualquer jornal de países subdesenvolvidos, mas foram reveladas como ingredientes perversos da atual máfia italiana no filme Gomorra. Inspirado no best-seller homônimo do escritor Roberto Saviano, o filme desvela as atrocidades cometidas para sustentar a máfia de Nápoles, Camorra. A falência social do país europeu governado pelo conservador Silvio Berlusconi é evidenciada e o glamour da moda italiana desce do salto, revelando uma Itália oculta para muitos.

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Não é à toa o uso da paronímia Gomorra, cidade bíblica que teria sido punida por Deus devido aos atos imorais de seus habitantes. O diretor Matteo Garrone quer alertar para a necessidade de punir os responsáveis pela terrível condição na qual napolitanos e imigrantes chineses são meras mercadorias para obtenção de lucro e poder.

Apesar de não ser citada, Sodoma também está presente. Os integrantes da máfia, predominantemente homens, têm “Scarface” como ícone, fazem as unhas, as sobrancelhas e bronzeamento artificial. A alta cúpula também anda em carros caríssimos e freqüenta prostíbulos. A preocupação estética, a prostituição e a adoração a ídolos norte-americanos são, portanto, alguns dos outros elementos que incentivam a participação nessa cadeia complexa e desumana.

gomorra-posterO filme não conta com grandes nomes como Francis Ford Coppola, Marlon Branco, Al Pacino e Diane Keaton, cineasta e intérpretes do ícone da máfia na Itália, O Poderoso Chefão. Muito pelo contrário, o estreante diretor Matteo Garrone escalou alguns não atores para compor o elenco.

Justamente por revelar a nova safra da máfia e do cinema italiano, Gomorra foi um dos mais premiados no continente europeu neste ano. Em Cannes, onde foi vencedor do Prêmio do Juri, o filme foi comparado com o brasileiro Cidade de Deus, o qual também utiliza a experiência pessoal de não atores e apresenta a realidade dos morros cariocas. Não à toa, a estréia de Gomorra espera que a realidade brasileira esteja, de alguma maneira, no registro quase documental das quebradas napolitanas.

Tentação

Ricky Hiraoka

Crepúsculo (Twilight) não é um romance, não é um drama e, apesar de falarstewtwi sobre vampiros, não é exatamente um filme de terror. É uma mistura de tudo isso com gosto de sessão da tarde. Pegue os conflitos típicos dos adolescentes de One Tree Hill acrescente os vampiros de Buffy mais o tom soturno de Supernatural. Pronto. Temos Crepúsculo, baseado no romance homônimo da escritora mórmom Stephenie Meyer.

O filme é centrado na jovem Bella (Kristen Stewart, a filha de Jodie Foster em O Quarto do Pânico), que se muda do Arizona para a minúscula e chuvosa Forks, onde passa a viver com o pai. Na nova cidade, Bella se sente imediatamente atraída pelo intrigante Edward Cullen (Robert Pattison de Harry Potter). Edward faz parte de uma misteriosa família da cidade que quase não se relaciona com outros habitantes de Forks. O convívio entre Bella e Edward é marcado pela tensão sexual e pelo desejo reprimido. Quando mais próximos ficam, mais difícil fica para controlar a crescente atração e melhor fica o jogo de sedução.

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A química entre os protagonistas é o ponto alto do filme e favorece a adesão do espectador em relação ao enredo, que, embora esteja longe de ser bom, tem lá seu charme. Kristen e Pattison são bonitos e conseguem segurar bem seus respectivos personagens. Missão que, convenhamos, não é das mais complicadas.

twilightposterDo meio para o fim, o clima de romance impossível entre Bella e Edward sai de cena e o filme se transforma num suspensezinho sem vergonha digno dos piores telefilmes. A diretora Catherine Hardwicke (Aos Treze), especializada em filmes sobre adolescentes, errou a mão ao deixar de lado os conflitos e os anseios típicos da idade e ceder ao apelo sobrenatural. A trama se torna excessivamente maniqueísta e perde o encanto que possuía no início. Se no começo havia uma história, ainda que morna, sobre dilemas adolescentes, no fim, há uma luta do bem contra o mal que não deixa nada a dever a filmes de terror trash.

Fuga ao estômago

Saulo Yassuda

Da fábula do biscoito que foge para não ser comido às mesas dos mais típicos natais dos Estados Unidos, o biscoito de natal é uma constante. Seja para ser presenteado ou para pendurar na árvore de natal – um costume nada brasileiro –, ele diferentes formas: estrela, pinheiro, coração, boneco (o mais famoso, aliás).

O gingerbread man é o biscoito mais típico de natal dos Estados Unidos e da Grã-Bretanha – é ele, inclusive, o que vem em forma de boneco, tradicionalmente. O biscoito, em referência à fábula, aparece como personagem em Shrek (2001), Shrek 2 (2004) e Shrek Terceiro (2007) No primeiro filme, tragicomicamente, Lord Farquaad quebra as pernas do biscoito para torturá-lo.

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Como se considera que o biscoito não é vivo e nem vai sair correndo por aí fugindo para não ser comido – pelo menos é o que se espera – , o Cinéfilos traz a receita do biscoito mais natalino dos biscoitos, que pode ser usado para presentear, enfeitar a árvore de natal e (por que não?) acompanhar mais uma maratona de filmes. Aí vai a receita, retirada do site Panelinha:

Para o biscoito

Ingredientes

100 g de manteiga
1 xícara (chá) de açúcar mascavo
4 colheres (sopa) de mel
2 xícaras (chá) de farinha de trigo
2 colheres (chá) de gengibre em pó
1 colher (chá) de bicarbonato de sódio
1 ovo batido
manteiga e farinha de trigo para untar e enfarinhar

Modo de Preparo

Numa panela, junte a manteiga, o açúcar mascavo, o mel e leve ao fogo baixo. Mexa com uma colher até obter uma calda.
Numa tigela, peneire a farinha de trigo, o gengibre e o bicarbonato. Misture bem com uma colher e acrescente a calda derretida e o ovo batido. Mexa até obter uma massa uniforme. Embrulhe a massa em filme. Não se preocupe com a consistência, pois a princípio a massa fica muito mole. Leve à geladeira por no mínimo 12 horas.
Preaqueça o forno a 180ºC (temperatura média).
Em uma superfície enfarinhada, abra a massa com um rolo até que fique com 0,5 cm de espessura. Corte a massa com cortadores de formatos variados. Se preferir, use a boca de um copo para fazer biscoitos redondos.
Unte duas ou mais assadeiras grandes com manteiga e polvilhe com farinha. Distribua os biscoitos nas assadeiras, deixando uma margem de 2 cm entre eles. Leve ao forno preaquecido e deixe assar por 10 minutos.
Retire do forno e deixe esfriar. Quando os biscoitos ficarem firmes, retire-os com a ajuda de uma espátula. Se quiser, enfeite os biscoitos com glacê, veja a receita na página seguinte. Conserve num recipiente fechado, em local seco e arejado.

Para o glacê

Ingredientes

1 clara
1/2 xícara (chá) de açúcar de confeiteiro
corante alimentício a gosto

Modo de Preparo

Numa tigelinha, bata ligeiramente a clara com um garfo até obter uma espuma. Acrescente o açúcar aos poucos, mexendo sempre, até obter um creme que não escorra.
Reserve um pouco do glacê branco e tinja o restante nas cores desejadas.
Enfeite os biscoitos com a ajuda de um palito ou de um saco de confeitar.