Arquivo do mês: novembro 2008

Clichê de natal

Bruno Benevides

feliz1Celebrado com um dos principais atores de sua geração, Selton Mello é mais um a seguir uma tendência mundial e se mudar para o outro lado da câmera. Sua estréia na direção é com o longa metragem Feliz Natal, filme que foi relativamente bem sucedido em festivais pelo Brasil.

O filme é um drama familiar intimista, que tem como protagonista Caio (Leonardo Medeiros) que na véspera de Natal resolve visitar a sua família depois de anos afastados após um traumático acidente. Assim ele vai reencontrar a mãe alcoólatra Mércia (Darlene Glória) e o irmão Theo (Paulo Guarnieri), em crise no casamento com a mulher (Graziella Moretto), além do pai (Lúcio Mauro), com quem é brigado.

O principal ponto do filme são as atuações. Selton soube escolher a dedo seus atores, trazendo de volta ao cinema pessoas que estavam afastadas, como Glória e Guarnieri, e utilizando o humorista Mauro em um feliz-natal02papel que mistura drama com humor. Destaque ainda para o garoto Fabrício Reis, carismático para a idade.

O resultado final, porém, esbarra na falta de experiência de Selton. Como diretor ele comete o mesmo erro de quando atua, uma falta de sutileza. Toda cena tenta ser grandiosa e inventiva, como se todo instante fosse o momento de êxtase. O resultado é que o filme fica repetitivo, chato, pois o mais importante deixa de ser a história ou os personagens e passa a ser a grandiosidade do diretor.

Ficha Técnica: Feliz Natal (Idem), Brasil, 2008

Direção: Selton Mello

Elenco: Leonardo Medeiros, Darlene Glória, Paulo Guarnieri, Graziella Moretto, Lúcio Mauro

Duração: 100 min.

Anúncios

Perdidos na noite eterna

Bruna Buzzo

A Princesa de Nebraska conta a história de uma menina confusa e perdida em um ambiente estranho, é um relato da solidão e uma critica à globalização, que integra desintegrando. O diretor Wayne Wang gosta desse tipo de relato. Em São Paulo, este longa estréia junto com outro filme seu, Mil Anos de Orações , de temática semelhante.

princesa-nebraska1

A diferença básica é que Mil Anos conta a história de um senhor chinês perdido em meio à cultura e costumes norte-americanos e A Princesa retrata a busca de uma menina sino-americana por aceitação. Nascida nos EUA, Sasha (Li Ling) viveu uma parte de sua vida na China; ali se apaixonou, engravidou e voltou para os Estados Unidos pensando em abortar. Os últimos 4 meses foram um período tenso em sua vida: sozinha, grávida e sem saber o que fazer, a jovem talvez precisasse apenas de amigos, mas tudo que encontra nos ambientes que tenta freqüentar é deslocamento.

Formular uma sinopse deste filme partindo apenas do que se vê na tela não é tarefa fácil, recorrer a uma sinopse pronta pode ser bem mais fácil se você procura por um resumo do longa. Este não é um filme de informações explícitas, daí a dificuldade com a sinopse. O diretor deixa muitas coisas jogadas; a ação acontece e o espectador aos poucos vai entendendo o desenrolar das cenas.

princesa-nebraska2Filmado de modo inovador, A Princesa tem cenas menores (a imagem no cinema diminui), filmadas com o celular da personagem principal, que ainda mantêm uma complicada relação à distância com o pai do filho que carrega, e, nos EUA, estreiou diretamente no YouTube.

A fotografia simples tem momentos inspirados com o giro das luzes de São Francisco, em uma forma interessante de retratar o movimento da noite e a confusão mental da protagonista. Aos olhos da jovem Sasha, tudo parece deslocado e triste. A moça se sente eternamente perdida. Como se sua vida houvesse mergulhado em uma noite eterna.

Traição oportuna

Bruna Buzzo

o_traidor2Você provavelmente já foi enganado pelo começo de muitos filmes. O Traidor (Traitor) é mais um para ser colocado nesta lista. No filme, agentes do FBI investigam uma conspiração terrorista islâmica que tem colocado homens-bomba em diversas partes do mundo. Pelas análises da polícia (em especial do agente Roy Clayton, interpretado por Guy Pearce), um ex-militar especializado, Samir Horn (Don Cheadle) é apontado como membro da organização. A sinopse, vista assim, não engana o espectador prevenido: este filme é, sim, mais uma defesa dos ideais norte-americanos em busca de sua suposta soberania e segurança perdidas.

O traidor do título é um homem dividido entre seus lados norte-americano e islâmico: filho de uma moça de Chicago com um senhor do Congo, Samir nasceu nos EUA e viveu a maior parte de sua vida no oriente, onde tomou contato com a religião islâmica que segue com tanto fervor. Devotado à Deus acima de tudo, em muitas cenas não conseguimos entender as ações de Samir, as vezes um pouco confusas. Esta teia narrativa conduz a história por alguns caminhos sem sentido e outros que talvez você preferisse evitar.

o_traidorCom 114 minutos, O Traidor é um pouco arrastado e, talvez, maior do que o desejável. Ainda bem que as músicas foram bem escolhidas! A trilha sonora colabora para criar tensão nas cenas de ação e envolve muito mais os espectadores do que o confuso roteiro. Ainda me pergunto de onde surgiu o agente (da CIA, acho) com quem Samir conversa em algumas cenas. Ele aparece antes? Quando deixa a cena, entendemos quem era?

Deste filme, salvem-se as atuações. Bons atores e algumas reflexões interessantes que podemos pensar a partir dos personagens de Don Cheadle e Guy Pearce. Aos olhos dos agentes comuns do FBI, Samir é o negro, islâmico, religioso fanático, o terrorista. Clayton é um policial branco, loiro, intelectual, filho de um típico pastor norte-americano, estudou árabe na faculdade e terminou no FBI, tem sensibilidade para compreender as ações passionais do grupo radical islâmico. Tem a suavidade de manter-se vivo em meio ao caos.

Lançado aqui no Brasil pouco tempo depois da eleição de Barack Obama, não deixa de ser curioso ver o “mocinho” negro que salvará a pátria mãe. Nos EUA, o filme estreiou no final de agosto e, se pensarmos bem, deve mesmo haver alguma mensagem por trás do roteiro. Ou, para o bem deste longa, espero que sim.

Pra que serve mesmo?

Márcia Scapaticio

O documentário “A margem da linha”, de Gisella Callas é corajoso. Sua proposta é construir um diálogo com o espectador sobre aspectos da arte moderna e contemporânea. Para isso, reune artistas e críticos, mas três deles são o ponto de partida e dão respaldo às discussões: Regina Silveira, Sérgio Sister e José Spaniol.

margemlinhaA diretora divide o documentário em seis blocos, seis questões em aberto a serem trabalhadas. Como olhamos e pensamos esse universo tão conflitante e belo que é a produção artística, o papel do atelie, da idéia, do famoso embate entre “inspiração e transpiração”. É interessante como todos os entrevistados reforçam o trabalho como um processo, um ritual que não conta apenas com a intuição: “Não há idéias, mas sim desdobramentos.”Apontam, também, para uma das motivações que fundamentam a arte: “Se você não tem perguntas também não tem nada a dizer.” As opiniões dos artistas plásticos esclarecem e, de certa maneira, mitificam esse trabalho, Callas serve-se de conceitos práticos do fazer atístico e dialoga com seus autores, contrastando pontos de vista, o que torna o documentário muito enriquecedor para quem assiste.

A discussão mostra o que ocorre em qualquer tipo de arte, o tecnicismo, a suposta morte de um conceito ou de um fazer artístico para a existência de outro e, o mais relevante, não apresenta, de forma alguma, um tipo de resposta. O documentário é realizado tendo como base entrevistas e depoimentos, não apresentando nenhuma novidade no modo de se realizar uma obra documental, porém, reflete os objetivos do próprio fazer artístico, uma vez que reflete em si mesmo seus conceitos e dualidades.

Há uma parte reservada para debate sobre o passado, o presente e o futuro da arte, contextualizada em sua pseudo elitização e na busca pela interatividade entre a obra e o público e um ponto delicado, a especularização da arte e sua preservação em contraste com sua efemeridade. A exposição dessas indagações de forma linear ajudam na construção das idéias; isso é confirmado pelos artistas que acreditam na transcendência da arte e atribuem a isso seu caráter universal e não elitista. O que cerca a arte é elitista, mas ela em si não o é? A arte existe em cada um e está ligada ao cotidiano, por isso é acessível ao olhar de quem estiver disposto a aceitar o desafio?

A proposta da diretora e dos artistas é louvável, afirmando a necessidade humana do simbólico como forma de conhecimento e de vivência. Como diz José Spaniol: “A arte como forma de colocar o vazio do sublime no mundo”. Só esse pensamento já é um bom motivo para prestigiar o documentário e deixar-se levar pelos questionamentos e perturbações do fazer artístico, sua teoria, beleza e complexidade.

Você não pode correr, mas bem queria

Felipe Maia

Sabe quando você senta numa cadeira, bem perto da ponta, balançando a perna e olhando pros lados? Pois então, você não se agüenta onde está e quer logo sair dali. Rec (Espanha, 2007) te deixa com a mesma sensação. Não porque é como aquela aula chata ou aquela conversa boçal — está bem longe disso. Em vez de sentar na ponta, o filme faz você afundar na cadeira do cinema e querer ir logo embora. E reze pra que ele acabe logo, porque você não consegue sair antes do fim.

recMuito da produção deve-se a clichês. Isto é, ao bom trabalho feito com todos eles. Geralmente encarados pejorativamente, os clichês são signos que atravessam nossa cultura e fazem-se necessário principalmente na arte. Em Rec, os chamados estereótipos já começam a ser quebrados antes da projeção: é uma fita espanhola de ficção. Afinal, dificilmente se vê um cinema fora de Holywood que não se atenha ao mundo real — em especial se for o mundo do terror, à exceção das recentes produções japonesas. No filme, uma equipe de televisão acompanha a noite de trabalho de um corpo de bombeiros. Ao atender um chamado aparentemente simples, o clima de programa da tarde vai abaixo e começa o show de horror.

A repórter Ângela Vidal (Manuela Velasco) e o cameraman Pablo Rosso (Pablo) são quem dão o título ao filme, pois em momento alguma a câmera é desligada. Aí mais um clichê muito bem aproveitado: o enquadramento é todo o tempo subjetivo, vindo da gravação de Pablo. Por vezes, parece que o rapaz (que não dá as caras) sofre de uma tremedeira compulsiva, o que não impede de o artifício usado trazer uma angústia e expectativa há muito não vista nos filmes de terror. Estes, ultimamente mais preocupados em tornarem-se almanaques de mil e uma maneiras de se matar uma pessoa. O cenário vertical dá um tom frenético à película, que ganha força com uma sonoplastia cuidadosa e uma correria justificável.

O roteiro bem amarrado vai se desenovelando aos poucos e os planos não poupam em sangue e carnificina. O conjunto enche um prato pra quem gosta do gênero. Ao sair da sala, além da sensação de alívio, fica na cabeça a prova de que os diretores e roteiristas Jaúme Balaguero e Paco Plaza são entendidos quando o assunto é terror. Acertaram até na trilha sonora: a única canção do filme é um ótimo psychobilly, o irmão siamês do horror quando se fala de música.

Não se engane pela alegre melodia

Bruna Buzzo

Uma divertida animação e uma música conhecida do público abrem Leonera, novo filme de Pablo Trapero (Família Rodante): a bola do menino na casa na rua na cidade que por fim termina no universo que contém leonera_cartaz1todo o cenário nos remonta de volta aos tempos de infância. A brincadeira representada na animação e as vozes das crianças abrem para um cenário triste que nos chama de volta à realidade: Julia (Martina Gusman) acorda assustada e ensangüentada em seu quarto com o cadáver de seu namorado e o amante deste, Ramiro (Rodrigo Santoro, em breve atuação), desacordado.

Grávida, a moça é levada para a ala especial de uma penitenciária feminina onde terá direito a permanecer com seu filho até ele completar quatro anos. Neste ambiente, Trapero nos mostra as mazelas da sociedade argentina (e global como um todo, pensando em um plano maior): temas como o abandono a que as moças e seus filhos são submetidos, o descaso por parte de familiares e do Estado, as mentiras e armações dos advogados e julgamentos e as relações interpessoais são discutidos pelo filme sem cair nas afetações e desnecessários clichês que muitos dramas do gênero carregam consigo.

O filme não deixa claro quem foi o verdadeiro responsável pelo assassinato, se Julia ou Ramiro, ele nos fornece as versões de ambos e nos deixa escolher em qual lado acreditar. Tendemos a sentir compaixão pela mãe que, no começo do filme, se vê sozinha e com o filho como única companhia. Atordoada e confusa na nova vida – encarar o desafio de ser mãe e cuidar de um bebê na prisão – Julia se abriga na amizade (e no afeto) com sua vizinha de cela para manter-se saudável nos momentos em que se abandonada e traída até pela própria mãe.

Leonera, em espanhol, é o lugar onde se mantém os leões. Neste caso, as leoas são mantidas em uma espécie de creche que mistura a alegria das crianças que brincam nas grades acinzentadas da melancólica prisão. Trapero soube mesclar neste filme as criticas à sociedade e a beleza nos gestos de verdadeira amizade e amor maternal. As músicas, muitas delas com temas infantis, ajudam a completar o quadro deste retrato social que Leonera desenha em suavidade e delicadeza.

Solitário Silêncio

Mariana Franco

De cada cena de O Silêncio de Lorna emana realidade. Quase não há música, nem preocupação com belas cenas ou fotografia. Os atores não são beldades, os figurinos mal variam. Assistir ao filme é como acompanhar uma personagem vinte e quatro horas por dia, a uma certa distância, sem nada dizer e sem nada ouvir. Só observar.

lorna3O filme dos irmãos Dardenne, premiado em Cannes, aborda o contexto da luta de imigrantes do leste europeu para construir uma vida nos países mais prósperos do continente. A albanesa Lorna, bem interpretada por Arta Dobroshi, vive em um casamento falso com o viciado em drogas Claudy (Jerémie Reniér) para obter a identidade belga. Seu sonho é conseguir a nacionalidade e um empréstimo para abrir uma lanchonete e viver com seu namorado, Sokol (Alban Ukaj), que trabalha no exterior. Aliciada por Fábio (Fabricio Rongione), um negociador de casamentos falsos, o plano era supostamente o viciado morrer de uma overdose após Lorna conseguir sua nacionalidade, para que ela em seguida case-se com um russo em troca do dinheiro que precisa. As coisas mudam de rumo, entretanto, quando Claudy resolve largar as drogas e pede ajuda à mulher para isso.

Além da realidade que acompanha todas as cenas, e da questão dos imigrantes na Europa, muito comentadas as duas; o filme explora a psicologia dessa mulher. O nome dado à obra não poderia ser melhor. O sofrimento não é escancarado, acompanhado de choro e desespero, é velado, está por baixo da pele, mudo como a personagem. Tanto quanto da tela emana realidade, emana também solidão. Pequenos detalhes do cotidiano, despercebidos para muitos, são opressores para a personagem: a caixa de correspondências, sempre vazia; as ligações que recebe, sempre sobre os negócios dos casamentos, nunca um amigo ou seu namorado. Lorna é uma mulher sozinha, num país estrangeiro, sem amigos, lutando contra uma dura realidade, apoiada apenas num sonho de futuro; seu sofrimento, imenso, é encarnado pelo seu silêncio. Pior que sofrimento cheio de gritos ou lágrimas é o sofrimento mudo, solitário. E é esta solidão opressora que leva a personagem aos limites da psicologia.

Depois de assistir esse ótimo filme (apesar do final um tanto vazio, e bastante criticado) não há como não sair do cinema como a personagem: muda.

Leia mais sobre este filme: À sua resposta, em silêncio, por Márcia Scapaticio