Arquivo do mês: julho 2008

Em Busca de Thelma e Louise

Felipe Marques

Quem não se lembra da mãe solteirona e descolada vivida por Cher em “Minha mãe é uma sereia”? Ou de Jodie Foster como Clarice Starling em “O Silêncio dos Inocentes”? Agora imagine essas atrizes num Ford Thunderbird 1966, conversível, fugindo da polícia, encontrando um cowboy vigarista vivido por George Clooney e sendo dirigidas por Richard Donner, diretor do Superman original. Ainda que hoje esse road movie só exista na imaginação, por muito pouco não virou aquilo que conhecemos por Thelma & Louise. Sob o capô do filme de 1991 existe muito mais do que motores, pistões ou engrenagens.

A começar pela polêmica envolvendo a escolha das protagonistas: Jodie Foster e Michelle Pfeifer já estavam escaladas para os papéis centrais de Thelma e Louise, que seria apenas produzido por Ridley Scott. Contudo, o tempo necessário para convencer Scott a trocar a cadeira de produtor pela de diretor inviabilizou a participação das duas atrizes no projeto. Já Meryl Streep e Goldie Hawn, que buscavam um filme para estrelar juntas, acabaram preferindo “A Morte lhe Cai Bem” ao road movie. Os nomes de Holly Hunter e Frances McDormand também foram citados para dar vida às protagonistas, e até mesmo Cher recebeu um convite para interpretar Thelma. A certa altura, a busca por protagonistas estava tão complicada que Geena Davis, que já havia sido contratada para o papel de Thelma, foi obrigada a assinar um contrato no qual se comprometia a interpretar qualquer uma das personagens principais se assim a necessidade exigisse.

Outra dificuldade relacionada ao elenco era o papel do vigarista JD. Interpretado na versão final por Brad Pitt, o papel que alavancou sua carreira em Hollywood seria originalmente interpretado por William Baldwin. O mais curioso é que Baldwin desistiu do papel em prol de protagonizar o filme “Cortina de Fogo”, projeto em que Pitt também estava envolvido antes de ser contratado para viver o cowboy de Thelma & Louise. George Clooney também fez uma série de testes na esperança de conseguir o papel. Uma curiosidade sobre as cenas quentes protagonizadas por JD e Thelma, que culminaram com a moça acordando na manhã seguinte apenas para descobrir que havia sido roubada, é que o diretor Ridley Scott acreditava que seria necessário contratar um dublê de corpo para Geena Davis. Ao saber disso, a atriz procurou o diretor e lhe disse que ela mesma faria as cenas; ao que parece Davis, assim como todas as mulheres do planeta, também queria tirar uma lasquinha de Brad Pitt…

As filmagens também não foram isentas de episódios singulares. Um dos mais interessantes veio da sugestão do diretor de, em prol de uma maior autenticidade de suas protagonistas, realmente explodir um caminhão em cena, ao invés de filmar separadamente a explosão e as reações. O que Scott não esperava era que de tão surpresas que ficaram assistindo a detonação, Sarandon e Davis se esqueceram de reagir, obrigando-o, mesmo assim, a filmar as reações das duas em outra tomada. O fim da estrada para Thelma e Louise também é um trecho marcado de rumores: reza a lenda que o diretor teve apenas 45 minutos para acertar a cena final, já que a luz havia começado a falhar e um feriado estava se aproximando, o que arruinaria completamente o vazio do cenário.

Outro detalhe marcante é que, por conta de traumas sofridos com filmagens anteriores, Susan Sarandon arrancou de Ridley Scott a promessa de que ele não mudaria o final do filme. Ainda assim, o diretor, como os fãs de Blade Runner e suas milhares de versões alternativas bem sabem, ficou descontente com o final original. Assim, ele substituiu a cena das protagonistas e seu carro mergulhando num precipício ao som de uma melancólica música de B.B. King, por um final mais animador, com uma cena do carro congelado enquanto ainda subia no ar, antes de cair, ao som da trilha sonora de Hans Zimmer. Assim, Ridley Scott manteve para sempre Thelma e Louise na estrada dos sonhos da platéia, dando-lhes um final digno dos grandes road movies do cinema, em que a melancolia e o vazio se encontram com a sensação de aventura e destemor que marca o gênero.

Anúncios

Cinema no céu, na água e no ar!

Hugo Nogueira

Os trens começaram a circular no celulóide já na gênese da expressão cinematográfica. Colocando nas telas as primeiras cenas de perseguição e captura, The Great Train Robbery (Edwin S. Porter, 1903) foi o primeiro filme que congregou os gêneros western e aventura, sugerindo as vastas potencialidades comerciais até então inexploradas da arte cinematográfica. Daí em diante, trens continuariam sendo um tema excitante nas telas.

A General

A General

O senso de movimento fez de A General (The General de Buster Keaton, 1926) um dos mais divertidos e movimentados filmes de todos os tempos: ambientado na época da Guerra da Secessão, a produção coloca um estóico herói em ininterrupta ação enquanto tenta resgatar a General, a locomotiva roubada do título. A construção da Union Pacific Railroad, uma das maiores ferrovias norte-americanas, foi o tema de The Iron Horse (John Ford, 1924) e de Aliança de Aço (Union Pacific, de Cecil B. DeMille, 1939). Em O Expresso de Shangai (Shangai Express, de Josef von Sternberg, 1932), a travessia ferroviária de Pequim a Shangai no meio de uma revolta armada é protagonizada por exóticos personagens com destaque para duas desinibidas prostitutas (Marlene Dietrich e Anna May Wong). Cumpre recordar, também, o famoso trem Expresso Oriente que, o seu apogeu, fazia a rota Paris-Constantinopla e foi cenário de um surpreendente crime em Assassinato no Expresso Oriente (Murder on the Orient Express, de Sidney Lumet, 1974, baseado no romance homônimo de Agatha Christie).

O cinema vai aos céus com Asas (Wings, de William Wellman, 1927), ambientado na Primeira Guerra Mundial

Asas

Asas

– a produção traz as mais espetaculares cenas de batalhas aéreas do cinema mudo e é, ainda hoje, um dos melhores filmes de guerra já produzidos. A fotografia aérea e as cenas de batalha entre aviões em Anjos do Inferno (Hell’s Angel, de Ben Lyon, 1930) também converteram esta produção num marco na história do cinema de aventura. Na Sétima Arte, contudo, o céu não foi o limite. A conquista espacial cinematográfica começou na alvorada do século XX com a delgada cápsula que levou os primeiros astronautas cinematográficos à Lua em La Voyage dans la Lune (de Georges Méliès, 1902). Foguetes espaciais voltariam à cena na série Flash Gordon (de Frederik Stephani, 1936) e em Daqui a Cem Anos (Things to Come, de William Cameron Menzies, 1936). As mais célebres espaçonaves cinematográficas, contudo, somente apareceriam muitas décadas depois: a nave comandada pelo computador HAL em 2001: uma Odisséia no Espaço (2001: a Space Odyssey, de Stanley Kubrick, 1968), a estação espacial de Solaris (Solaris, de Andrei Tarkovski, 1971), o comboio Nostromo de Alien, o Oitavo Passageiro (Alien, de Ridley Scott, 1979), a nave que dá nome à produção Apollo 13: do Desastre ao Triunfo (Apolo 13, de Ron Howard, 1995), dentre muitas outras.

Os mares foram singrados por uma imensa frota de navios cinematográficos: o barco pesqueiro We’re Here em Capitão Coragem (Captains Courageous, de Victor Fleming, 1937), o barco mercante Glecairn em The Long Voyage Home (de John Ford, 1940, baseado na obra de Eugene O’Neill), o navio pirata Revenge em O

O Grande Motim

O Grande Motim

Cisne Negro (The Black Swan, de Henry King, 1942), o galeão Santa Madre em Pirata dos Sete Mares (The Spanish Main de Frank Bozarge, 1945), dentre muitos outros. O Grande Motim (Mutiny on the Bounty, de Frank Lloyd, 1935), por outro lado, foi baseado no histórico motim ocorrido em 1788 no H.M.S. Bounty devido ao tratamento cruel imposto aos marinheiros pelos oficiais da Marinha Britânica. O Gavião do Mar (The Sea Hawk, de Michael Curtiz, 1940), o qual tem a maior parte de sua ação centrada no navio Albatross, foi também frouxamente inspirado na derrota da Invencível Armada da Espanha pela Marinha Britânica de Elizabeth I. Eventualmente, o mais célebre dos navios históricos registrado no celulóide foi o encouraçado da frota do czar, o Príncipe Potemkin de Táurida, em O Encouraçado Potemkin (Bronenosets Potiomki, de Sergei Eisestein, 1925).

Naufrágios espetaculares constituem o clímax das aventuras marítimas do cinema. O desastre do navio negreiro William Brown, efetivamente, é o ponto culminante de Almas ao Mar (Souls at Sea, de Henry Hathaway, 1937), tanto quanto o soçobro do baleeiro Pequod constitui o ápice de Moby Dick (Moby Dick, de John Huston, 1956). Por outro lado, o naufrágio do Patna é o ponto inicial de Lord Jim (Lord Jim, de Richard Brooks, 1965) baseado no romance de Joseph Conrad e o mesmo pode ser dito do afundamento do H.M.S Torrin em Nosso Barco, Nossa Vida (In Wich We Serve, de David Lean e Nöel Coward, 1940). 20.000 Léguas Submarinas (20.000 Leagues Under the Sea, de Richard Fleischer, 1954) levou o cinema para o mundo subaquático com o primeiro submarino da literatura, o Nautilus, oriundo da obra de Julio Verne (Vingt Mille Lieues Sous les Mers, 1869.

Os andarilhos também tiveram largo espaço para caminhar nas telas como bem atesta Forrest Gump, o Contador de Histórias (Forrest Gump, de Robert Zemeckis, 1994). Contudo, de longe, a mais excitante das

As Minas do Rei Salomão

As Minas do Rei Salomão

aventuras andantes provavelmente foi a épica travessia entre feras e tribos primitivas pela selva africana em As Minas do Rei Salomão (King Solomon’s Mines, de Compton Bennett e Andrew Malton, 1950).

Há ainda que falar dos meios de transporte exóticos. Em A Volta ao Mundo em 80 Dias (Around the World in 80 Days, de Michael Anderson, 1956), baseado também num livro de Julio Verne (Le Tour du Monde en Quatre-vingts Jours, 1873) os meios de locomoção que levaram os personagens pela França, Espanha, Suez, Índia, Sudeste da Ásia e Estados Unidos foram variados: um balão, um trem, um navio, uma carruagem, um elefante e até uma avestruz. A célebre e opressiva carruagem em No Tempo das Diligências (Stagecoach, de John Ford, 1939), as trágicas bicicletas em Ladrões de Bicicleta (Ladri de Biciclette, de Vittorio de Sica, 1948) e o tapete voador de O Ladrão de Bagdá (The Thief of Bagdad, de Michael Powell, 1940) foram igualmente meios pouco usuais de celebração do movimento nas telas.

O fascínio do cinema com o deslocamento no espaço reverbera a própria natureza cinética da Sétima Arte. O cinema é, essencialmente, a arte do fotograma em movimento. Celebrando a velocidade, a ação, o ritmo e a ruptura da distância, o cinema evoca, metaforicamente, o dinamismo de sua própria natureza. A arte cinematográfica, desde suas origens, teve no movimento uma matéria prima definitiva que lhe proveu de forma e conteúdo.

Estradas Sonoras

Cris Sinatura

Em Quase famosos, a voz quase angelical de Elton John em Tiny Dancer amacia os nervos excitados da banda Stillwater durante as viagens da turnê pelos Estados Unidos. Para Ana, Tenoch e Julio de E sua mãe também, as estradas do México ficam bem mais agitadas quando o rádio toca rap. E por que não mencionar o ritmo que Shania Twain e sua Man I feel like a woman dão às “aventuras” de Britney Spears e amigas a bordo de um conversível velho em Crossroads?

Quem vai negar que música e estrada formam um par tão prazeroso quanto cinema com pipoca? Como não reparar que as notas e os tons e os timbres colocam em harmonia rodas, estradas e paisagens, conferem ritmo à dança agitada do ponteiro no velocímetro, transformam em melodia o ronco quente do motor?

Tanto é verdade que um road movie que se preze eleva a trilha sonora da categoria de mera complementação de uma cena à condição de sustentáculo condutor da mesma.  O que seria das viagens de Orlando Bloom em Tudo acontece em Elizabethtown sem a seleção musical feita por Kirsten Dunst, que vai de James Brown a Smashing Pumpkins? E o que seria de Diários de Motocicleta sem a canção Al otro lado rel rio, que, por ilustrar tão bem as viagens de Ernesto Guevara e Alberto Granada pela América do Sul, acabou por render um Oscar de Melhor Canção Original ao cantor uruguaio Jorge Drexler?

Cada estrada e cada humor pedem trilhas sonoras diferentes. Para uma viagem em clima rock ‘n’ roll, como em Quase famosos, Pearl Jam cai feito uma luva com Alive, e Lenny Kravitz com Fly away. E já que o tema dessa viagem é a busca pela fama no mundo do rock, por que não Rockstar, do Nickelback, ou All Star, do Smash Mouth?

Mas se o destino é o mar, o sol e a areia, a voz da vez é, sem dúvidas, o havaiano Jack Johnson – por clichê que seja. É só fugir do óbvio; as canções menos conhecidas, como Tomorrow morning e The horizon has been defeated, é que realmente ganhariam a cena em um bom road movie praiano.

Falando em clichê, quantos não são os filmes que usam e abusam da cena clássica em que a mocinha ou o mocinho choram rios sobre o volante enquanto dirigem? Se um desamor é o combustível que alimenta o seu road movie, então James Blunt vem a calhar com Same mistake ou então Matchbox Twenty com Cold.
Se você quer hits clássicos para conduzir os rumos sinestésicos da sua viagem, vá de Like a rolling stone do lendário Bob Dylan ou de qualquer uma dos bons e velhos Beatles (desde Help! e Ticket to ride até All you need is love, vale tudo).


Mas se seus anos dourados foram bem depois da década de 60, então aperte o play em dois hits dos anos 90: That thing you do, dos fictícios The Wonders, ou Wannabe, das queridinhas do pop Spice Girls. Saudosismo pouco é bobagem.

Se em Cinema, aspirinas e urubus, um road movie com o típico jeitinho brasileiro de ser, é Carmen Miranda quem dá ritmo às andanças de Johan e Ranulpho pelo sertão nordestino, outros nomes da música nacional também são capazes de embalar boas viagens. Da Jackie Tequila do Skank ao Cotidiano de Seu Jorge, tem opções para todo tipo de gosto, de viagem e de paisagem.

Era Uma Vez… De Novo

Felipe Maia

Acredito que um bom roteiro já é meio caminho andado para um bom filme. Breno Silveira, na sua nova empreitada, tinha um ótimo roteiro: Romeu e Julieta. É um Romeu e Julieta revisitado, com as adições dos conflitos modernos e dos problemas brasileiros. Mas é uma história de amor que encanta por sê-la. E pára por aí.

No filme, Dé (o global Thiago Martins) é um garoto de um morro carioca que trabalha para sustentar a mãe. A vida do rapaz é sofrida, desde pequeno ele se vê imersos em problemas e tristezas justamente pela sua condição. O par está formado com Nina (Vitória Frate). A garota é linda e rica, mas, assim como Dé, não acredita na prisão a qual sua posição social impõe.

A partir daí a trama se desenrola com pitadas de originalidade — que haveriam de surgir, indubitavelmente. Entretanto, elas ficam somente nesse ponto. Em seus planos, Breno Silveira aproveita os cenários do morro e do asfalto de maneira excessiva e acaba criando uma visão minimalista das coisas. Em matéria de amor, principalmente em matéria de amor do século XXI, tudo é muita coisa — ainda mais em se tratando de um casal de jovens.

Outro fator que não cola mais é o romantismo. Ele pode até existir, mas não do modo como é mostrado na película. É algo exagerado, transbordante. Em algumas cenas só faltam subir anjos aos céus, explodirem fogos de artifício e caírem pétalas de rosa. O clima não é coerente com o recorte da realidade proposto por Breno. Esse clima só não cai em completo descaso graças à trilha sonora. Essa é muito boa. Marisa Monte coordenou essa parte e fez um bom trabalho. Destaque para Luiz Melodia cantando a música tema do casal, Minha Rainha — grande canção.

O diretor de Dois Filhos de Francisco vem, nessa fita, provavelmente repetir o feito de grande bilheteria. A história comove e é gostosa de se ver. Não vale como discussão da sociedade ou da violência — talvez não tenha sido esta a proposta de Breno, e nem o que eu penso que deva ser feito. O filme vale para ser visto sem maiores reflexões sócio-economico-politico-etc. É uma história de amor cujo final deixa a sensação de que “só poderia ter acabado assim”. Claro: esse enredo você conhece, nem que seja de ouvido.

Planeta dos Macacos

Ricky Hiraoka

Poster do filme Space Chips

É fato que as crianças não detêm mais a exclusividade sobre as animações. Nos últimos anos, filmes desse gênero inserem nos roteiros piadas que só podem ser compreendidas por pessoas que já deixaram a infância há algum tempo. Space Chimps – Micos no Espaço também bebe dessa fonte. Entretanto, o filme mira principalmente no público infantil. A maior prova é a escolha de Yudi e Priscilla (os insuportáveis apresentadores do programa Bom Dia e Cia) para dublarem as personagens principais.

Dos mesmos criadores de Shrek, o filme conta a história do simpático macaco Ham III, descendente do primeiro chimpanzé a ir para o espaço. Após uma sonda espacial, que procurava vida inteligente fora da Terra, se perder em um planeta desconhecido, Ham III é convocado pela agência espacial para ser um dos tripulantes de uma nave cuja principal missão é resgatar a sonda perdida. No planeta desconhecido, o tirano Zartogui usa a sonda como instrumento de domínio dos outros habitantes, espalhando o terror. Enquanto que na Terra, um ambicioso senador aumenta a cada dia o orçamento da agência espacial a fim de resgatar a sonda perdida e provar que existe vida em outros planetas.

Personagens do filme Space Chimps

Space Chimps funciona como uma metáfora para uma recente situação política internacional. É como se Bush fosse o senador e Zartogui representasse Osama Bin Laden. Da mesma maneira como os Estados Unidos foram, de certa forma, responsáveis pelo fornecimento de armas para os terroristas da Al Qaeda, foi o senador que armou o monstrego Zartogui. Tanto na vida real quanto na ficção, foi necessário arriscar vidas para deter a ação do inimigo. Tudo é insinuado de maneira muito sutil, sendo perceptível somente para os mais atentos.

A animação busca passar mensagens positivas, como solidariedade, e, por poucas vezes, arrisca uma tirada mais ousada para entreter os adultos das platéias. Space Chimps pode não ter personagens tão carismáticas quanto as de Shrek, mas, com certeza, tem um enredo muito inteligente, chegando a ser ácido.

Mea Culpa

Ricky Hiraoka

Ao Entardecer tem dois pontos em comum com Desejo e Reparação. O primeiro é a atuação de Vanessa Radgrave. Outra coincidência é o fio condutor da trama estar centrado na culpa. É a culpa que move a vida das personagens e influencia suas escolhas. Entretanto, não são as semelhanças que tornam a comparação entre esses filmes inevitável; são as diferenças. Se em Desejo e Reparação, o espectador sai atordoado, pensando nas conseqüências de seus atos, em Ao Entardecer (Evening) a impressão que fica é que esquecemos de deixar cair aquela lágrima enquanto os créditos sobem pela telona.

O forte elenco, recheado de talentos e nomes conhecidos como Meryl Streep, Glenn Close e Toni Colette, é o principal atrativo do filme e se esforça para sustentar Ao Entardecer. Claire Danes e Vanessa Radgrave interpretam as duas fases de Ann, que revive um importante episódio de sua vida no leito de morte. Na juventude, Ann, uma aspirante a cantora, vai para o litoral oeste americano para prestigiar o casamento da amiga Lila (Mamie Gummer, filha de Meryl Streep na vida real). Lá, conhece o médico Harris (Patrick Wilson) por quem se apaixona. Essa atração, porém, parece proibida, pois Lila, apesar de estar prestes a se casar, é apaixonada pelo médico. Outro empecilho para que o romance entre Harris e Ann se concretize é o problemático Buddy, o irmão de Lilá, brilhantemente interpretado Hugh Dancy. Buddy tem uma ualidade indefinida, sentindo-se atraído tanto por Ann quanto por Harris. A imprudência de Buddy será a responsável por Ann carregar vida afora o remorso e o desejo de voltar no tempo para fazer tudo de modo diferente.

O filme falha em não explorar o potencial dramático do improvável triângulo amoroso formado por Ann, Harris e Buddy. Tudo é minimizado. Parece que a intenção é não chocar a platéia. Tendo como base as competentes performances e uma belíssima fotografia, Ao Entardecer propõe uma pergunta que já passou pela cabeça de todos: controlamos nosso destino ou tudo acontece por que nossa vida é pré-determinada por uma força maior? Apesar de ser um bom filme, a produção de nome do diretor não passa de maneira eficiente a mensagem proposta. O impacto que o enredo causa no espectador fica aquém do resultado que poderia ser obtido. Ao final do filme, sentimos o amargo gosto da resignação.

Um filme para se ver com o coração

Ricky Hiraoka

Estréia sexta-feira (25/07) Era Uma Vez, o novo filme de Breno Silveira, diretor de Dois Filhos de Francisco. Em sua segunda produção, Silveira aborda um tema recorrente no cinema nacional: a violência na periferia das grandes cidades. Diferentemente de Cidade de Deus e Tropa de Elite, Era Uma Vez retrata esse problema sob a ótica do amor. “Não só o amor Romeu e Julieta, mas o amor de irmãos, amor de pai” enfatiza o diretor.

Era Uma Vez é um velho projeto do diretor. “Eu queria escrever sobre um garoto que, apesar de tudo que enfrenta, teima em ser bom”. Dessa vontade, nasceu A História de Dé, a primeira versão de Era Uma Vez. Quando se preparava para tornar A História de Dé seu primeiro filme, Silveira foi convidado para dirigir Dois Filhos de Francisco. Segundo o cineasta, a cinebiografia dos irmãos Camargo mostrou que ele gostava de falar através do coração. Isso fez com que ele modificasse o projeto original de A História de Dé a fim de injetar maior emoção no roteiro.

Elenco

Com as mudanças concluídas, Silveira iniciou a busca por seus protagonistas: Dé, o garoto do Morro do Cantagalo, e Nina, a jovem de classe média alta. “O processo de escolha de elenco é um processo de achar almas parecidas” diz o cineasta. Foram necessários seis testes para que Thiago Martins convencesse Silveira que sua alma e a da Dé eram semelhantes. Thiago se interessou em interpretar Dé, pois acreditava que o enredo de Era Uma Vez retratava a história de um trabalhador. “Meu maior orgulho foi representar 90% da população da favela, gente honesta” concluiu Thiago.

A estreante Vitória Frate também demorou a conseguir provar que estava apta para interpretar Nina. De acordo com Silveira, Vitória ganhou o papel por representar sem exageros, “com uma economia no olhar”. Para a atriz, não foi difícil interpretar Nina. “As personagens não estão distantes. É preciso entender o olhar de cada personagem” diz Vitória.

Se Thiago e Vitória não encontraram dificuldade com suas personagens, o mesmo não ocorreu com Rocco Pitanga. Interpretando o traficante Carlão, Pitanga afirma que foi muito complicado atuar sem ser over e sem cair no estereotipo. O atore defende os atos da personagem. “Carlão só mudou de conduta por falta de opção. Ele é um produto do meio”.

Final polêmico

Sobre o final do filme, que foi criticado em exibições testes, Silveira defende seu ponto de vista. “O fim é extremamente poético. (O filme) É uma fábula falando sobre o real. Temos uma licença poética para aquele fim”.