O Cinéfilos virou site!

jjrEquipe Cinéfilos – J.Jr ECA/USP

Depois de muito esforço e dedicação, nosso querido blog cresceu e virou um lindo site!

A J.Jr (Empresa de Jornalismo Junior da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo) orgulhosamente apresenta:

http://cinefilos.jjunior.org.br/

Ainda estamos fazendo os ajustes finais, mas o site já esta funcionando a todo vapor!

Comente, participe, dê suas sugestões e dicas! … E boa sessão!

Titãs, em forma, 26 anos depois

Heloísa Ribeiro

Já fazia tempo que o músico Branco Mello tinha a intenção de fazer um documentário sobre sua banda de rock, os Titãs, uma das mais importantes do Brasil. “Um dia eu vou fazer isso, vou fazer um filme”, dizia.

titas1Esse dia levou 22 anos. Mas valeu a pena. Titãs – a vida até parece uma festa estreou dia 15 de janeiro, após dar uma palhinha na 32ª Mostra Internacional de Cinema. Ao lado de Branco Mello, a co-direção do amigo e cineasta Oscar Rodrigues fez toda a diferença: “Tinha que ser um cara como o Oscar, respeitoso, talentoso, com um jeito compatível com o meu”. O titã conheceu Oscar quando este dirigiu o clipe da música Epitáfio, em 2002. Mostrou-lhe então a enorme coleção de fitas não catalogadas, que ele produziu desde que comprou a câmera, em 1986. Branco a levava nos shows, estúdios, quartos de hotéis, aeroportos, ensaios, registrando momentos vibrantes de criação e engraçadíssimos bastidores.

Junto às imagens amadoras do músico, apresentações antológicas foram recuperadas, como a do Hollywood Rock em 1988, onde os Titãs tocaram para mais de 200 mil pessoas, e a do Acústico MTV em 1997, que consagrou o aniversário de 15 anos da banda e marcou sua segunda geração de fãs. Esse Acústico vendeu mais de 1,7 milhão de cópias, o recorde do formato.

titas21Além dessas, o longa mostra diversas apresentações da banda em programas de auditório, como no Qual é a Música? de Silvio Santos e no Domingo Legal de Gugu Liberato, em que a banda encena resgatar uma fã de uma bizarra aranha gigante. Branco conta que era “um grande barato” para a banda tocar nesses programas: “A gente tocava nos buracos de São Paulo, mas tinha essa coisa em comum, de gostar dos programas de auditório. A gente achava aquilo a cara do Brasil e queria fazer parte também”.

Na quarta-feira, dia 28/1, Branco Mello e Oscar Rodrigues participaram de um debate com a plateia após sessão do filme, no HSBC Belas Artes. Ambos contaram das experiências que os levaram até a produção do filme, da perspectiva do ídolo e do fã. Oscar falou da honra de ser “convidado a interpretar o primeiro filme dos Titãs”, cuja obra sempre o emocionou. “Se já é uma responsabilidade dirigir um videoclipe, transformar em imagens as canções, com um filme isso só aumenta. Além disso, eu acho que eu nunca te falei isso antes [dirigindo-se a Branco Mello], mas é difícil co-dirigir. Um dragão de duas cabeças pode muito mais facilmente se chamuscar. Mas o Branco foi ótimo, conseguimos trabalhar com harmonia”.

Já Branco Mello desabafou que não só é difícil ser um titã, como “ser um titã contando uma história dos Titãs, do conjunto, uma banda que nasce, renasce, se reinventa o tempo todo”. Havia a preocupação de agradar aos outros integrantes, tão personagens quanto ele nessa história, mas ao mesmo tempo de “mostrar o melhor e o pior de cada um”, de ser sincero no relatar. Em busca desse equilíbrio, “A vida até parece uma festa” não se exime de mostrar momentos como a prisão por posse de drogas (e sua abusiva cobertura da mídia) de Arnaldo Antunes e Tony Bellotto e a morte do guitarrista Marcelo Fromer em 2001.

Também o consenso entre Branco e Oscar por contar uma história dos Titãs sem ordem cronológica e sem narrativa foi um passo nessa busca: “A gente resolveu fazer uma coisa pro cinema, então o bacana é chamar as pessoas pro cinema. Não é elas estarem ouvindo uma história, mas participando duma história”, explica Branco.

titas3-anos80Embora às vezes essa história possa parecer desconexa e as cenas das brincadeiras do grupo, um tanto excessivas, o filme mostra as raízes da familiaridade que os brasileiros têm com letras como Bichos escrotos e Marvin e figuras como Nando Reis e Arnaldo Antunes. Segundo Branco Mello: “Os nossos fãs de quinze anos nem sabem que o Arnaldo era um titã, veem ele como tribalista. Fãs mais novos não vão se lembrar do Nando na banda também, acho que o filme tem isso de importante, de contar isso”.

Entre passados mais e menos recentes, é divertido e emocionante acompanhar o intenso convívio de uma banda que, ao longo de 26 anos de carreira, não perdeu a juventude, a amizade e a paixão pela música e é uma das maiores inspirações e modelos da música pop brasileira.

ESTREIA: O Peso da Vergonha

Ricky Hiraoka

Kate Winslet é dotada de um talento ímpar que a faz, sem sombra de dúvida, a maior atriz de sua geração. Ela consegue encarnar as mais variadas personagens sem nunca se repetir e, sempre, é muito verossímil. Essas habilidades podem ser conferidas em O Leitor (The Reader), que estreia nessa sexta-feira. Através de olhares, entonações nos diálogos e gestos minimalistas, a atriz constrói uma mulher que expressa uma dureza nos olhos e possui uma sensualidade fria. Winslet é capaz de antecipar o que Hanna esconde ou o que ela enfrentará com um olhar desviado ou uma mão que, repentinamente, vai a nuca como se quisesse disfarçar alguma coisa.

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A indicação ao Oscar de Melhor Atriz por esse papel é merecida, mas ela também deveria concorrer por Foi Apenas Um Sonho. Apesar de apresentar uma performance formidável em O Leitor, Winslet é prejudicada pela natureza de sua personagem. Dificilmente, a ala judia da Academia reconhecerá seu trabalho uma vez que ela interpreta uma guarda nazista que não se sente culpada pelas mortes cometidas pelo Reich de Hitler. Graças a um fortíssimo lobby, os membros judeus da Academia já conseguiram tirar o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro de Paradise Now, uma produção palestina, e com Winslet poderá acontecer o mesmo, o que beneficiará ou Anne Hathaway (O Casamento de Rachel) ou Meryl Streep (Dúvida).

Ambientado na Alemanha pós-guerra, O Leitor narra o envolvimento sexual de Hanna Schimitz, uma ex-guarda nazista de 36 anos, com o adolescente Michael. Todo encontro desse improvável casal segue um estranho ritual: primeiro, tomam banho, depois, Michael lê algum romance para Hannna e, em seguida, fazem sexo. O tórrido romance dura apenas um verão e acaba devido ao sumiço repentino de Hanna. Anos mais tarde, quando já está cursando Direito, Michael reencontra Hanna. Mas o destino os coloca de lados opostos. Hanna está sendo julgada por ter trabalhado num campo de concentração durante a 2° Guerra Mundial e Michael é convocado por um de seus professores para acompanhar o julgamento. Trabalhar para os nazistas, porém, não é o único segredo guardado por Hanna. Ela esconde outro detalhe de sua vida que determinará seu destino.

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Rever a ex-amante faz Michael sentir novamente sentimentos que há tempos estavam enterrados e provoca dúvidas a respeito de quem merece ser punido pelos crimes dos nazistas. Só os participantes ativos do massacre dos judeus devem sofrer um castigo ou aqueles que foram omissos em relação a matança também merece uma punição? Essa questão ainda é fonte de polêmica e, dificilmente, uma resposta satisfatória será encontrada.

É bom deixar claro que O Leitor não pretende polemizar, nem discutir tal assunto. O filme apenas retrata brilhantemente como o sentimento de culpa causado pelo Holocausto ainda é refletido no cotidiano e nas atitudes dos alemães.

Para sempre aterrorizante

Mariana Franco

Qual seria o filme de terror por excelência? Não “Um” filme, mas “O” filme? Se uma votação como essa fosse feita, muitos seriam os votos para O Exorcista, que há décadas é lembrado por muita gente como o filme mais assustador que já assistiram. Aliás, muitos até hoje não se aventuram a assistí-lo.

Um demônio libertado numa escavação no Oriente Médio se apossa de Regan (Linda Blair), uma menina de 12 anos que mora com a mãe (Ellen Burstyn), atriz divorciada. A garota, até então amável, passa a apresentar comportamento agressivo, falar palavras de baixo calão e fazer atos estranhos. Tida como adoentada, passa por uma série de medonhos (e provavelmente bem dolorosos!) exames na tentativa de um diagnóstico. A situação e os horrores vão evoluindo até a sua completa transformação num demônio, e à solução temporária de deixá-la amarrada à cama. Sem mais saber o que fazer, sua mãe, desesperada, recorre ao padre e psiquiatra Damien Karras (Jason Miller) para fazer o exorcismo.

O filme, tenso desde o início, é marcado mais pelo terror psicológico do que por banhos de sangue, mutilação e toda espécie de carnificina tão comuns em filmes do gênero. Todo o horror que ele inspira, talvez, se deva ao fato de o roteiro parecer mais “real” do que outros filmes de terror, de aventuras demasiadamente fantasiosas. N’O Exorcista vamos acompanhando a mãe da menina a procurar por todas as soluções possíveis até o final reconhecimento de que a filha está possuída, passando antes, pelas fases de descrença e questionamentos religiosos que seriam comuns a qualquer um de nós.

Entretanto, o filme é mesmo lembrado pelas cenas clássicas de possessão, como a que Regan desce a escada de casa feito uma aranha, ou aquela em que se masturba violentamente com um crucifixo, espalhando sangue por todos os lados e gritando com uma voz realmente demoníaca: “Deixe que Jesus te foda”.

Na fase de completa transmutação da garota, uma brava salva de palmas deve ser dada à maquiagem. Não é mais possível reconhecer as feições da menina por baixo da pele esverdeada coberta de feridas abertas e cheias de pústulas. A voz do demônio, capaz de causar arrepio na espinha, foi dublada pela atriz Mercedes McCambridge, que ingeriu ovos crus e fumou feito uma chaminé para alcançar o resultado esperado.

exo4Para aumentar a aura assustadora do filme, uma série de acontecimentos estranhos e um tanto quanto macabros aconteceram durante as filmagens e pouco depois delas, incluindo a morte de um ator e vários acidentes com a equipe de filmagens. E um detalhe a mais: o número da casa em que se realizaram as filmagens era 666. Truque de marketing ou coincidência do demo?

Comparado com os filmes de hoje (lembrem-se que esse “velhinho” já tem mais de trinta anos!), alguns dos efeitos são tão toscos que chegam a provocar riso, como os flashs de uma face do demônio branca e de olheiras vermelhas, que mais parece o Marilyn Manson (ok, não que ele não seja assustador), ou os jorros de vômito verde e espesso, mais parecidos com sopa de ervilha ou vitamina de abacate.

A todos que me perguntam, eu respondo que não tenho medo, assisto sozinha (à noite) e dou risada assistindo O Exorcista. E dou mesmo. Mas confesso que depois, TV desligada, luzes apagadas, meu pensamento ainda volta incomodamente àqueles olhos demoníacos e à música, tão característica, do filme.

O gênio do suspense no cinema filma o gênio da literatura de terror

Victor Caputo

Quando pensamos em suspense no cinema logo nos vem o nome de Stanley Kubrick. Quando o assunto é terror na literatura temos Stephen King. A pergunta é: o que acontece se Kubrick filmar um livro de King? A resposta é “O Iluminado” de 1980.

Um dos maiores filmes de terror da história do cinema. Kubrick não precisa de grandes efeitos especiais para nos deixar rígidos e aflitos enquanto assistimos ao filme. Coloque duas meninas vestidas de forma igual de pé em um corredor, corta para as duas mesmas meninas mortas e sangue por todo lado. Com certeza é mais do que o suficiente para provocar calafrios.

Jack Nicholson parece perfeito para o papel de escritor perturbado que toma conta de um hotel, apenas com a mulher e filho, isolados de todo resto do mundo. Com a sua peculiar cara de louco, principalmente lá para os finalmentes do filmes quando sua paranóia e loucura já estão bem afloradas. Impossível esquecer a expresão de maníaco com a cabeça enfiada entre os pedaços da porta despedaçada por um machado enquanto ele persegue a mulher e o filho.

Algumas mudanças leves foram feitas na adapatação às telas, algumas delas uma pena na minha opinião. Uma das cenas mais assustadoras e aflitivas do livro foi cortada e o final também foi alterado.

Entre rabiscos de RedruM, grandes volumes de sangue vindo em câmera lenta pelos corredores do hotel, quartos proibidos, muita neve e um labirinto, “O Iluminado” é ainda hoje um dos filmes mais assustadores de todos os tempos.

ESTREIA: Por uma vida menos ordinária

Ricky Hiraoka

Onze anos após o sucesso de Titanic, Kate Winslet e Leonardo Di Caprio voltam a contracenar no drama Foi Apenas Um Sonho (Revolutionary foi-apenas-um-sonho2Road). Dessa vez, Kate e Di Caprio enfrentam outro naufrágio: o do casamento. Na pele de April e Frank Wheler, os dois atores representam a angústia e a frustração de um casal da classe média alta americana da década de 1950 que não está satisfeito com o estilo de vida que leva. April é uma atriz fracassada que se vê obrigada a ser dona de casa e cuidar dos dois filhos. Já Frank trabalha como vendedor em uma empresa, tendo o mesmo emprego que seu pai tinha, algo que jurou para si mesmo, quando criança, que não aconteceria jamais.

Entre brigas e reconciliações, April e Frank decidem que Paris é o lugar ideal para serem felizes e encontrarem seus respectivos lugares no mundo. Ela trabalharia como secretária em uma embaixada, enquanto ele decidiria qual é sua verdadeira vocação. Mas, aos poucos, eles percebem que tal mudança não será tão fácil. A cada passo que dão rumo ao sonho de ir para Paris, eles se deparam com o vazio e a mediocridade que imperam em suas vidas.

foi-apenas-um-sonho3Foi Apenas Um Sonho é uma crítica mordaz não só ao estilo americano de viver, mas também à maneira acomodada como conduzimos nossas vidas. April e Frank são metáforas para a covardia generalizada que toma conta dos homens. A busca pelo conforto, pelo dinheiro e pela vida que achamos que devemos ter nos impede de ver o que realmente nos faz feliz. April e Frank veem em Paris a possibilidade da redenção que não serão capazes de alcançar.

Através de uma ótica um tanto niilista, Sam Mendes cria uma fábula para explicar o que move o ser humano: a insatisfação. Cada ação, cada gesto, cada movimento de April e Frank tende a buscar desesperadamente a felicidade e a sensação de estar vivo. Embora brilhante, Foi Apenas Um Sonho foi ignorado pela Academia. O filme apresenta uma direção segura, atuações memoráveis, uma deslumbrante direção de arte e um figurino impecável. Mas, por motivos obscuros, todos esses predicados não agradaram aos membros da Academia. Talvez o que os tenha incomodado foi o fato de Foi Apenas Um Sonho ser real demais.

ESTREIA: Woody sombrio

Saulo Yasssuda

A humanidade e seu pavor de mudanças. Esse tema, que atinge seres de diferentes idades, está presente no novo filme do argentino Daniel Burman, que estreia hoje (30) em São Paulo e outras capitais. Em Ninho Vazio, o cineasta, de 35 anos, mostra o passar das horas de Leonardo (Oscar Martínez), escritor cinquentão bem-sucedido da classe média argentina.

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A diferença da idade entre criador – Burman – e criatura – Leonardo – talvez influencie nos cortes bruscos que percorrem todo o longa. Isso, talvez, configura em uma forma de o diretor, que também escreveu o roteiro, evitar mergulhar no que não conhece. E, se o filme mostra o passar das horas de Leonardo, o faz com esses pequenos recortes.

Leonardo em um jantar com a esposa – crise no casamento. Leonardo conversando com o novo amigo psiquiatra – reflexões existenciais. Leonardo no consultório da bela dentista – relacionamento relâmpago. É montando essas pequenas peças cotidianas que o escritor passa seus dias – não se sabe bem quanto tempo é percorrido – para tentar preencher o vazio deixado pela saída dos filhos de casa.

Os filhos crescem e vão embora. O ninho fica vazio. Restam Leonardo e a esposa, os dois que, longe do caos diário que era a vida com os três filhos, caem de volta dentro de uma relação a dois, que entra em crise. Os filhos seguem suas vidas. Enquanto isso, Leonardo parece estacionar a sua. O chefe da família se ressente e mergulha em si, enquanto Martha (Cecília Roth), a esposa, volta aos estudos, faz novas amizades na faculdade, tem uma vida mais ativa, cheia de amigos. Um casal de antítese.

3759jpgNesse conflito que não explode – uma espécie de “guerra fria” – Leonardo parece agonizar. Vemos passagens suas que não se sabe se são sonho, realidade, ou o próprio interno do personagem. Tudo acompanhada de uma gostosa trilha jazzística. E são nesses momentos de menos fala e de mais contemplação que Burman ganha pontos.

Muito comparado a Woody Allen, o diretor, pelo menos se depender de Ninho Vazio, parece se distanciar mais do cineasta norte-americano – a não ser que fosse chamado de “Woody sombrio”. Ninho Vazio é sombrio. Ou, se quiser dar um sentido gustativo ao longa, Ninho Vazio é amargo.