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O Homem Por Trás da Imagem

3/Novembro/2008 · 1 Comentário

Tulio Bucchioni

“Tentamos mostrar o homem por trás da imagem e fomos bem-sucedidos em fazer um filme sobre o ser humano em Che” declara Laura Bickford, produra do filme “Che”, que encerrou a 32ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, na última quinta-feira, dia 31.

Se apresentaram ainda para uma platéia lotada de jornalistas os atores Benício Del Toro, que vive Ernesto “Che” Guevara no longa (papel que lhe rendeu o prêmio de melhor ator no Festival de Cannes de 2008), o brasileiro Rodrigo Santoro, que interpreta o irmão de Fidel Castro, Raúl Castro, e Diego Halari, representante da Sun Distributions, empresa responsável pela distribuição do filme no Brasil.

Benicio del Toro como Che Guevara no filme de Soderberg

Benício del Toro como Che Guevara no filme de Soderberg

“Che” conta com atores de toda a América Latina e até ganhar seu formato de hoje 4 anos se passaram. Para a realização do filme, o diretor, o americano Steve Soderbergh, junto com a produtora Laura e Del Toro, viajou para a França, Argentina e Cuba, aonde foram feitos estudos detalhados sobre a vida de Che. “ Fizemos um estudo em muitas partes do mundo com pessoas que conheceram Che; esse estudo influenciou muito no filme e foi um investimento de 6, 7 anos” aponta Del Toro.

O filme foi filmado no México, em Porto Rico, nos Estados Unidos, na Bolívia e na Espanha. De acordo com Laura, trata-se de um filme espanhól que não obteve patrocínio algum dos EUA. A equipe não pôde filmar em Cuba devido ao embargo norte-americano à ilha. A produtora afirmou também que a escalação de atores foi espontânea: “atores que já conhecíamos vieram nos procurar e ao longo do processo encontramos também muitos novos atores latino-americanos maravilhosos”. Santoro entrou na equipe da primeira maneira.

O ator contou que “Che” foi um dos primeiros projetos que conheceu no exterior e logo após ter lido o roteiro se encontrou com a produtora e ficou estimulado e apaixonado pelo projeto. “ No ano passado fiquei sabendo que o projeto tinha saído, foi então que entrei em contato com a Laura novamente, passei a estudar espanhól e finalmente consegui uma entrevista com o Steve, após ter perdido a primeira entrevista de escalação de atores por motivos profissionais” conta o brasileiro. A entrada de Santoro no filme não foi tão rápida. “ Sonhei em fazer parte da equipe por 5 anos, estava disposto a fazer qualquer coisa para participar do projeto”. Foi Laura quem ajudou o ator a entrar no filme. Já havia um ator escalado para interpretar Raúl Castro, mas após tanta insistência, a produtora e Soderbergh ficaram tocados com a vontade e disposição de Santoro. “ Eu até brinquei com eles: o maior país da América Latina é o Brasil, como vocês ainda não escalaram um brasileiro no elenco?” diverte-se o ator.

E deu certo. Seu personagem, que teria apenas uma fala, terminou com várias. O processo de composição do personagem foi longo, Santoro teve 1 mês e meio de aulas de espanhól todos os dias com um professor cubano e só depois desse período viajou para Cuba. “ Realizei um sonho, fui para tentar entender a cultura, o povo, tentar entender o que é ser um cubano. Fui para passar 10, 15 dias e acabei ficando 1 mês e meio. Andei por toda a ilha e procurei manter uma pureza no olhar. Tive muito suporte das pessoas. Foi uma experiência de vida muito forte”.

Del Toro, um dos idealizadores do projeto e também produtor executivo, afirmou se impressionar com a combinação de intelectual e “homem de ação” que percebe em Che. “ Quase tudo me desafiava no personagem; Che é um produto da história da América Latina” declara o ator. Quando questionado sobre seu primeiro contato com Guevara, Del Toro declarou ter ouvido seu nome um pouco tarde. “ Nasci em Porto Rico, onde se estuda muito pouco a revolução cubana ou Che; a primeira vez que ouvi seu nome foi através de uma canção dos Rolling Stones. Os jovens não usam a camiseta de Che. Depois li uma carta de Che para sua família e a carta me comoveu muito, Che era um ótimo escritor.”

Fazendo uma possível relação entre a América Latina dos anos 60 e a atual, Laura afirmou acreditar que o sofrimento, a injustiça e a fome ainda estão presentes. “ Os valores de Che são universais e o filme tenta levantá-los; a questão é como implementá-los de uma forma diferenciada. O objetivo do filme é levantá-los novamente” diz a produtora. Sobre as filmagens na Bolívia, Laura afirmou que a experiência de filmagem foi tocante e comovente e apesar dos períodos díficeis enfrentados, em virtude do conflito entre governo e oposição no país, a interação da população com a equipe foi excelente. Discorrendo sobre o filme, a produtora conclui: “ o filme serve como uma inspiração metafórica, poética, espero que o Che não tenha morrido em vão”. “Che” chega ao circuito comercial no primeiro semestre de 2009.

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Sob o espartilho da nobreza

29/Outubro/2008 · 2 Comentários

Bruna Buzzo

Em destaque, as belas paisagens da Inglaterra, os figurinos e perucas e a ousadia de uma das mulheres mais influentes da sociedade inglesa do século XVIII. A Duquesa (The Duchess), filme estrelado por Keira Knightley, retrata a vida de Georgiana Cavendish, a Duquesa de Devonshire, suas desventuras familiares e amorosas, seu envolvimento com a política e, como contexto e pretexto para a ação principal, a Inglaterra, seus costumes e conservadorismos.

Aos 17 anos, a jovem e bela Georgiana casa-se com Sir William Cavendish, 5º Duque de Devonshire (Ralph Fiennes), um homem seco e distante cujo único interesse no casamento é ter um herdeiro. Os castelos da Inglaterra oprimem a moça dentro de casa, que tem uma relação fria e distante com o marido, e a glorificam nos salões da nobreza onde brilha com seu encanto e os belos vestidos.

Inspirado na biografia da Duquesa, o filme retrata a vida de uma socialite à frente de seu tempo: no final do século XVIII, Georgiana apoiou o Partido Liberal em comícios públicos apesar das mulheres não terem direito de voto na época, além de desafiar as convenções sexuais e matrimoniais. Tendo demorado para ter um filho homem, a distância em seu casamento só fez aumentar, chagando ao ponto de William se envolver com a amiga de sua esposa, Lady Elizabeth Foster e viverem os três sobre um mesmo teto. À traição do marido, a duquesa respondeu no mesmo tom, apesar de não guardar mágoas do esposo com sua amante.

A fotografia dos belos campos e castelos da Inglaterra, aliada aos figurinos desta superprodução, disfarçam a má interpretação de Keira Knightley no papel principal, que parece interpretar sem o mesmo papel em filmes de época (como em Orgulho e Preconceito ou Desejo e Reparação). Já o britânico Ralph Fiennes brilha em sua interpretação do cruel duque e nos faz esquecer de sua simpatia, convencendo o espectador da crueldade e frieza do nobre William. Keira, aqui, só não é pior que a falsa barriga com que tentaram envelhecer Fiennes.

Serviço

Na 32ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, o filme passa pela última vez nesta quarta-feira, dia 29, às 13h, na sala 1 do Reserva Cultural.

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Por uma vida mais consciente

27/Outubro/2008 · 1 Comentário

Bruna Buzzo

De volta à telas de cinema, o diretor Wim Wenders apresentou Palermo Shooting ao público da 32ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. Seu novo filme é um tributo a dois grandes mestres do cinema: Michelangelo Antonioni e Ingmar Bergman, que morreram no mesmo dia, em 30 de julho de 2007, e antes do término das filmagens de Palermo.

O filme tem como personagem principal um fotógrafo, assim como Depois daquele beijo, 1966, de Antonioni, que irá de encontrar com a Morte, tal qual o cavaleiro de Bergman em O Sétimo Selo, de 1956. Finn Gilbert (Campino) é um fotógrafo e professor universitário que vai à pequena cidade de Palermo, na Itália, em busca de calma e sentido para a vida vazia que leva na Alemanha.

No ápice de suas insônias e confusôes mentais, Finn sofre um acidente que poderia tê-lo matado e começa a repensar sua vida e o que fez dela até então. Usando um ensaio fotográfico como pretexto, vai à Palermo para longas férias. Ali, o fotógrafo se encontra com a Morte diversas vezes durante o desenrolar da trama. Em seus passeios pela pequena cidade, fotografa o interessante à sua volta, é evitado por uma tímida ovelha e conversa com uma fotógrafa que retrata a morte e a transitoriedade das cenas, objetos e pessoas.

Ainda dominado pela dificuldade em dormir, Finn adormece em um local público e é desenhado por Flavia (Giovanna Mezzogiorno), uma moça que trabalha na restauração de um quadro no Museu de Arte da cidade. O jovem acredita estar sendo atacado por um arqueiro que deseja matar-lhe e confia sua história à Flavia, única a acreditar no rapaz devido ao longo contato com o quadro “O Triunfo da Morte em Palermo”, que retrata justamente a morte, sem face, como cavaleiro(a) e arqueiro(a).

Mais dinâmico que outros filmes de Wenders, Palermo Shooting reflete sobre os valores que atribuímos à vida e morte, esta última sempre vista como vilã, sobre a fotografia, as novas tecnologias e a sociedade da imagem na qual vivemos. Em algumas cenas, a citação a pensadores como Jorge Luis Borges e José Saramago é bastante clara e Wenders defender muito bem suas idéias nas falas de seus personagens.

A fotografia e a trilha sonora merecem destaque a parte: Finn é viciado em fones de ouvido e, em muitas cenas, a música pára, aumenta ou abaixa de acordo com a atitude do fotógrafo em relação aos fones. A escolha das músicas também foi muito bem pensada, harmonizando com a velocidade ou não das cenas. A grande maioria deste longa se desenvolve em tons escuros. No campo, mais calmo e próximo de Flavia, a fotografia abre para lindas cenas da paisagem italiana, em oposição ao cinza da Alemanha em que o jovem Finn vivia.

Na Mostra de Cinema de São Paulo, o filme será exibido pela última vez hoje (27), às 19h50, na sala 2 do HSBC Belas Artes (R. da Consolação, 2.423, tel. (11) 3258-4092). O ingresso custa R$7 e vale a fila!

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O rumo dos EUA visto pelos Irmãos Coen

23/Outubro/2008 · 3 Comentários

Bruna Buzzo

Assistir ao novo longa dos irmãos Coen nesta 32ª edição da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo não foi tarefa fácil. Super badalado, o filme lotou as salas de cinema em todas as exibições que teve até agora (fato que deve se repetir em sua última exibição na Mostra, que acontece amanhã (24)). Queime depois de Ler (Burn after reading – intelligence is relative) é garantia de sucesso para os diretores, boas risadas para o espectador e vale todas as filas que você enfrentará se quiser vê-lo antes de sua estréia nos cinemas brasileiros, prevista para o dia 28 de novembro deste ano.

O enredo usado para o longa poderia cair em um filme qualquer de ação, bandidos e policiais que você já viu tantas vezes, mas não nas mãos desta dupla de diretores e roteiristas. Segundo algumas sinopses, este filme retrata um ex-agente da CIA que começa a escrever suas memórias com importantes detalhes sobre a agência e a ação se desenrola no momento em que as informações caem nas mãos de “dois inescrupulosos funcionários de uma academia de ginástica que tentarão ganhar com isso, vendendo as informações.”

Uma sinopse assim afasta qualquer espectador! Olhando de maneira simplista é exatamente isto que ocorre no filme, com o detalhe de que os tais funcionários da academia não são nem espertos, nem malvados o suficiente para serem tachados de inescrupulosos. Suas atuações (e não só dos atores, mas o papel que os personagens representam) são mais cômicas do que qualquer outra coisa. Estes são Linda Litzke (Frances McDormand) e Chad Feldheimer (Bras Pitt), o núcleo desencadeador de toda a ação que gira em torno da atrapalhada perseguição destes dois ao ex-agente Osbourne Cox (John Malkovich, em ótima atuação).

Queime depois de Ler é, antes de qualquer outra coisa, um retrato da sociedade dos EUA e das paranóias que o povo norte-americano criou e com as quais ele não sabe lidar. Muitas destas paranóias não dizem respeito apenas a um fator local, mas são perceptíveis em qualquer país, o que permite ao filme extrapolar as fronteiras de sua língua e localidade, para levar a uma reflexão de fatores globais como o terrorismo, as bipolaridades políticas, a busca pela beleza a qualquer custo, a segurança e as liberdades individuais.

Toda a trama começa por que Linda, uma moça que se acha feia, quer fazer cirurgias de alto custo que seu convênio não cobre. Em sua busca desesperada pela verba necessária à realização de seu plano de beleza, ela envolverá desde seu inocente e caricato amigo Chad até o paranóico Harry Pfarrer, agente de segunrança brilhantemente interpretado por Georgie Clooney.

Da inocência de Linda e Chad aos inescrupulosos agentes da inteligência nacional norte-americana, Ethan e Joel Coen construíram um retrato que se assemelha a Onde os Fracos não tem vez. Com bom humor, ironia e uma pitada de maldade, o espectador se vê na tela e pode questionar as mazelas de uma sociedade decadente e em busca de um rumo para o futuro.

Nota: a estréia do filme em São Paulo foi confirmada para o dia 28/11/2008, em grande circuito.

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Brilho à névoa cotidiana

21/Outubro/2008 · Deixe um comentário

Bruna Buzzo

Co-produção franco-romena, Como Eu Festejei o Fim do Mundo mostra a decadência e o declínio do regime comunista na Romênia. Sob uma ótica diferente dos filmes com essa mesma proposta, aqui a análise parte dos personagens, de seus desgostos e aflições pessoais provocadas e oriundas da política nacional.

Eva (Doroteea Petre) é uma estudante comum que, por culpa do namorado – e vizinho – Alex (Ionut Becheru), acaba sendo expulsa do colégio em que ambos estudam. Alex quebra um busto do presidente Nicolai Ceausescu no colégio e seu pai policial, contrariando pedidos do menino, não isenta Eva de punições.

Os pais da menina acreditam que ela não deveria desprezar Alex, pois sua relação com ele os ajuda, e condenam a filha quando ela começa a se envolver com Andrei (Cristian Vararu), um novo vizinho considerado capitalista e colega na nova escola, que mais poderia ser considerada um reformatório.

Este cenário cotidiano estrutura e apresenta o final dos anos 80 de modo escuro e sombrio: a fotografia foca as casas e os ambientes com pouca luz, a Romênia é mostrada aqui como um país nebuloso e triste. O roteiro nos fala de como essa neblina parece penetrar na alma dos personagens, influenciando e direcionando suas vidas. Eles ganham brilho na atuação dos jovens atores que formam o núcleo principal da trama.

A grande atração deste filme, porém, é o irmãozinho de Eva, Lali (assim apelidado pela irmã), que faz planos de derrubar o presidente Ceausescu, sonha com barcos e vive gripado. O menino – brilhantemente interpretado pelo novato Timotei Duma – reflete a indignação crescente da população para com o socialismo e a esperança de mudanças próximas. Por si só, já valeria a pena.

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À sua resposta, em silêncio

18/Outubro/2008 · 2 Comentários

Márcia Scapaticio

O “Silêncio de Lorna” é um dos filmes que compõe a 32ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. Dirigido pelos irmãos Jean – Pierre e Luc Dardenne possui uma abordagem ácida da condição humana, falando mais alto, nesse caso, a questão dos imigrantes, representados por Lorna (Arta Dobroshi) em sua busca pela cidadania belga. O que podemos sacrificar em nós e nos outros para conseguirmos algo? O comportamento de Lorna perante as situações e a música de encerramento do filme talvez tragam luz à discussão, porém, o seu final torna confusa a nossa experiência como espectador da obra.

Inserir a contrastante vivência do imigrante a seus limites pessoais é uma das chaves narrativas, não há como representar o próprio desejo quando se está submetida aos mandos e desmandos dos verdadeiros donos da vontade; nenhum sentimento de Lorna é considerado e os seus parceiros de cena são absorvidos por isso. A personagem é chamada muitas vezes durante o filme, ouve-se: “Lorna!”; “Lorna?”, e a resposta possível é o silêncio, a única atitude é obedecer.

O modo de filmar com a câmera fechada, centrada nas ações dos personagens, reforça o sentimento de estar sem saída. Resta agir e não contestar. Das cenas, não se exige emoção, contudo, quando ela se faz, é em seu caráter mais extremo. Todos esses detalhes e nuances podem dificultar a aceitação do filme ou provocar um desejo de que ele vá além, entretanto, é essa a proposta oferecida pelos diretores e, assim como Lorna, o espectador pode escolher entre “dar o silêncio” ou “dar a resposta”. Para tal, basta aceitar o desafio e conferir a sessão.

Locais e horários:

Reserva Cult. 1 – Sáb (18), 22h20min

Cine TAM 3 – Seg (20), 21h

Esp. Unib. 3 – Sexta (24), 17h10min

Unib. Pompéia 1 – Dom (26), 22h00

Leia mais sobre este filme: Solitário Silêncio, por Mariana Franco

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