Cinéfilos – Apaixonados por Cinema

Entradas do Novembro 2008

Clichê de natal

22/Novembro/2008 · 3 Comentários

Bruno Benevides

feliz1Celebrado com um dos principais atores de sua geração, Selton Mello é mais um a seguir uma tendência mundial e se mudar para o outro lado da câmera. Sua estréia na direção é com o longa metragem Feliz Natal, filme que foi relativamente bem sucedido em festivais pelo Brasil.

O filme é um drama familiar intimista, que tem como protagonista Caio (Leonardo Medeiros) que na véspera de Natal resolve visitar a sua família depois de anos afastados após um traumático acidente. Assim ele vai reencontrar a mãe alcoólatra Mércia (Darlene Glória) e o irmão Theo (Paulo Guarnieri), em crise no casamento com a mulher (Graziella Moretto), além do pai (Lúcio Mauro), com quem é brigado.

O principal ponto do filme são as atuações. Selton soube escolher a dedo seus atores, trazendo de volta ao cinema pessoas que estavam afastadas, como Glória e Guarnieri, e utilizando o humorista Mauro em um feliz-natal02papel que mistura drama com humor. Destaque ainda para o garoto Fabrício Reis, carismático para a idade.

O resultado final, porém, esbarra na falta de experiência de Selton. Como diretor ele comete o mesmo erro de quando atua, uma falta de sutileza. Toda cena tenta ser grandiosa e inventiva, como se todo instante fosse o momento de êxtase. O resultado é que o filme fica repetitivo, chato, pois o mais importante deixa de ser a história ou os personagens e passa a ser a grandiosidade do diretor.

Ficha Técnica: Feliz Natal (Idem), Brasil, 2008

Direção: Selton Mello

Elenco: Leonardo Medeiros, Darlene Glória, Paulo Guarnieri, Graziella Moretto, Lúcio Mauro

Duração: 100 min.

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Perdidos na noite eterna

21/Novembro/2008 · Deixe um comentário

Bruna Buzzo

A Princesa de Nebraska conta a história de uma menina confusa e perdida em um ambiente estranho, é um relato da solidão e uma critica à globalização, que integra desintegrando. O diretor Wayne Wang gosta desse tipo de relato. Em São Paulo, este longa estréia junto com outro filme seu, Mil Anos de Orações , de temática semelhante.

princesa-nebraska1

A diferença básica é que Mil Anos conta a história de um senhor chinês perdido em meio à cultura e costumes norte-americanos e A Princesa retrata a busca de uma menina sino-americana por aceitação. Nascida nos EUA, Sasha (Li Ling) viveu uma parte de sua vida na China; ali se apaixonou, engravidou e voltou para os Estados Unidos pensando em abortar. Os últimos 4 meses foram um período tenso em sua vida: sozinha, grávida e sem saber o que fazer, a jovem talvez precisasse apenas de amigos, mas tudo que encontra nos ambientes que tenta freqüentar é deslocamento.

Formular uma sinopse deste filme partindo apenas do que se vê na tela não é tarefa fácil, recorrer a uma sinopse pronta pode ser bem mais fácil se você procura por um resumo do longa. Este não é um filme de informações explícitas, daí a dificuldade com a sinopse. O diretor deixa muitas coisas jogadas; a ação acontece e o espectador aos poucos vai entendendo o desenrolar das cenas.

princesa-nebraska2Filmado de modo inovador, A Princesa tem cenas menores (a imagem no cinema diminui), filmadas com o celular da personagem principal, que ainda mantêm uma complicada relação à distância com o pai do filho que carrega, e, nos EUA, estreiou diretamente no YouTube.

A fotografia simples tem momentos inspirados com o giro das luzes de São Francisco, em uma forma interessante de retratar o movimento da noite e a confusão mental da protagonista. Aos olhos da jovem Sasha, tudo parece deslocado e triste. A moça se sente eternamente perdida. Como se sua vida houvesse mergulhado em uma noite eterna.

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Traição oportuna

15/Novembro/2008 · Deixe um comentário

Bruna Buzzo

o_traidor2Você provavelmente já foi enganado pelo começo de muitos filmes. O Traidor (Traitor) é mais um para ser colocado nesta lista. No filme, agentes do FBI investigam uma conspiração terrorista islâmica que tem colocado homens-bomba em diversas partes do mundo. Pelas análises da polícia (em especial do agente Roy Clayton, interpretado por Guy Pearce), um ex-militar especializado, Samir Horn (Don Cheadle) é apontado como membro da organização. A sinopse, vista assim, não engana o espectador prevenido: este filme é, sim, mais uma defesa dos ideais norte-americanos em busca de sua suposta soberania e segurança perdidas.

O traidor do título é um homem dividido entre seus lados norte-americano e islâmico: filho de uma moça de Chicago com um senhor do Congo, Samir nasceu nos EUA e viveu a maior parte de sua vida no oriente, onde tomou contato com a religião islâmica que segue com tanto fervor. Devotado à Deus acima de tudo, em muitas cenas não conseguimos entender as ações de Samir, as vezes um pouco confusas. Esta teia narrativa conduz a história por alguns caminhos sem sentido e outros que talvez você preferisse evitar.

o_traidorCom 114 minutos, O Traidor é um pouco arrastado e, talvez, maior do que o desejável. Ainda bem que as músicas foram bem escolhidas! A trilha sonora colabora para criar tensão nas cenas de ação e envolve muito mais os espectadores do que o confuso roteiro. Ainda me pergunto de onde surgiu o agente (da CIA, acho) com quem Samir conversa em algumas cenas. Ele aparece antes? Quando deixa a cena, entendemos quem era?

Deste filme, salvem-se as atuações. Bons atores e algumas reflexões interessantes que podemos pensar a partir dos personagens de Don Cheadle e Guy Pearce. Aos olhos dos agentes comuns do FBI, Samir é o negro, islâmico, religioso fanático, o terrorista. Clayton é um policial branco, loiro, intelectual, filho de um típico pastor norte-americano, estudou árabe na faculdade e terminou no FBI, tem sensibilidade para compreender as ações passionais do grupo radical islâmico. Tem a suavidade de manter-se vivo em meio ao caos.

Lançado aqui no Brasil pouco tempo depois da eleição de Barack Obama, não deixa de ser curioso ver o “mocinho” negro que salvará a pátria mãe. Nos EUA, o filme estreiou no final de agosto e, se pensarmos bem, deve mesmo haver alguma mensagem por trás do roteiro. Ou, para o bem deste longa, espero que sim.

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Pra que serve mesmo?

13/Novembro/2008 · Deixe um comentário

Márcia Scapaticio

O documentário “A margem da linha”, de Gisella Callas é corajoso. Sua proposta é construir um diálogo com o espectador sobre aspectos da arte moderna e contemporânea. Para isso, reune artistas e críticos, mas três deles são o ponto de partida e dão respaldo às discussões: Regina Silveira, Sérgio Sister e José Spaniol.

margemlinhaA diretora divide o documentário em seis blocos, seis questões em aberto a serem trabalhadas. Como olhamos e pensamos esse universo tão conflitante e belo que é a produção artística, o papel do atelie, da idéia, do famoso embate entre “inspiração e transpiração”. É interessante como todos os entrevistados reforçam o trabalho como um processo, um ritual que não conta apenas com a intuição: “Não há idéias, mas sim desdobramentos.”Apontam, também, para uma das motivações que fundamentam a arte: “Se você não tem perguntas também não tem nada a dizer.” As opiniões dos artistas plásticos esclarecem e, de certa maneira, mitificam esse trabalho, Callas serve-se de conceitos práticos do fazer atístico e dialoga com seus autores, contrastando pontos de vista, o que torna o documentário muito enriquecedor para quem assiste.

A discussão mostra o que ocorre em qualquer tipo de arte, o tecnicismo, a suposta morte de um conceito ou de um fazer artístico para a existência de outro e, o mais relevante, não apresenta, de forma alguma, um tipo de resposta. O documentário é realizado tendo como base entrevistas e depoimentos, não apresentando nenhuma novidade no modo de se realizar uma obra documental, porém, reflete os objetivos do próprio fazer artístico, uma vez que reflete em si mesmo seus conceitos e dualidades.

Há uma parte reservada para debate sobre o passado, o presente e o futuro da arte, contextualizada em sua pseudo elitização e na busca pela interatividade entre a obra e o público e um ponto delicado, a especularização da arte e sua preservação em contraste com sua efemeridade. A exposição dessas indagações de forma linear ajudam na construção das idéias; isso é confirmado pelos artistas que acreditam na transcendência da arte e atribuem a isso seu caráter universal e não elitista. O que cerca a arte é elitista, mas ela em si não o é? A arte existe em cada um e está ligada ao cotidiano, por isso é acessível ao olhar de quem estiver disposto a aceitar o desafio?

A proposta da diretora e dos artistas é louvável, afirmando a necessidade humana do simbólico como forma de conhecimento e de vivência. Como diz José Spaniol: “A arte como forma de colocar o vazio do sublime no mundo”. Só esse pensamento já é um bom motivo para prestigiar o documentário e deixar-se levar pelos questionamentos e perturbações do fazer artístico, sua teoria, beleza e complexidade.

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Você não pode correr, mas bem queria

12/Novembro/2008 · 6 Comentários

Felipe Maia

Sabe quando você senta numa cadeira, bem perto da ponta, balançando a perna e olhando pros lados? Pois então, você não se agüenta onde está e quer logo sair dali. Rec (Espanha, 2007) te deixa com a mesma sensação. Não porque é como aquela aula chata ou aquela conversa boçal — está bem longe disso. Em vez de sentar na ponta, o filme faz você afundar na cadeira do cinema e querer ir logo embora. E reze pra que ele acabe logo, porque você não consegue sair antes do fim.

recMuito da produção deve-se a clichês. Isto é, ao bom trabalho feito com todos eles. Geralmente encarados pejorativamente, os clichês são signos que atravessam nossa cultura e fazem-se necessário principalmente na arte. Em Rec, os chamados estereótipos já começam a ser quebrados antes da projeção: é uma fita espanhola de ficção. Afinal, dificilmente se vê um cinema fora de Holywood que não se atenha ao mundo real — em especial se for o mundo do terror, à exceção das recentes produções japonesas. No filme, uma equipe de televisão acompanha a noite de trabalho de um corpo de bombeiros. Ao atender um chamado aparentemente simples, o clima de programa da tarde vai abaixo e começa o show de horror.

A repórter Ângela Vidal (Manuela Velasco) e o cameraman Pablo Rosso (Pablo) são quem dão o título ao filme, pois em momento alguma a câmera é desligada. Aí mais um clichê muito bem aproveitado: o enquadramento é todo o tempo subjetivo, vindo da gravação de Pablo. Por vezes, parece que o rapaz (que não dá as caras) sofre de uma tremedeira compulsiva, o que não impede de o artifício usado trazer uma angústia e expectativa há muito não vista nos filmes de terror. Estes, ultimamente mais preocupados em tornarem-se almanaques de mil e uma maneiras de se matar uma pessoa. O cenário vertical dá um tom frenético à película, que ganha força com uma sonoplastia cuidadosa e uma correria justificável.

O roteiro bem amarrado vai se desenovelando aos poucos e os planos não poupam em sangue e carnificina. O conjunto enche um prato pra quem gosta do gênero. Ao sair da sala, além da sensação de alívio, fica na cabeça a prova de que os diretores e roteiristas Jaúme Balaguero e Paco Plaza são entendidos quando o assunto é terror. Acertaram até na trilha sonora: a única canção do filme é um ótimo psychobilly, o irmão siamês do horror quando se fala de música.

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Não se engane pela alegre melodia

10/Novembro/2008 · Deixe um comentário

Bruna Buzzo

Uma divertida animação e uma música conhecida do público abrem Leonera, novo filme de Pablo Trapero (Família Rodante): a bola do menino na casa na rua na cidade que por fim termina no universo que contém leonera_cartaz1todo o cenário nos remonta de volta aos tempos de infância. A brincadeira representada na animação e as vozes das crianças abrem para um cenário triste que nos chama de volta à realidade: Julia (Martina Gusman) acorda assustada e ensangüentada em seu quarto com o cadáver de seu namorado e o amante deste, Ramiro (Rodrigo Santoro, em breve atuação), desacordado.

Grávida, a moça é levada para a ala especial de uma penitenciária feminina onde terá direito a permanecer com seu filho até ele completar quatro anos. Neste ambiente, Trapero nos mostra as mazelas da sociedade argentina (e global como um todo, pensando em um plano maior): temas como o abandono a que as moças e seus filhos são submetidos, o descaso por parte de familiares e do Estado, as mentiras e armações dos advogados e julgamentos e as relações interpessoais são discutidos pelo filme sem cair nas afetações e desnecessários clichês que muitos dramas do gênero carregam consigo.

O filme não deixa claro quem foi o verdadeiro responsável pelo assassinato, se Julia ou Ramiro, ele nos fornece as versões de ambos e nos deixa escolher em qual lado acreditar. Tendemos a sentir compaixão pela mãe que, no começo do filme, se vê sozinha e com o filho como única companhia. Atordoada e confusa na nova vida – encarar o desafio de ser mãe e cuidar de um bebê na prisão – Julia se abriga na amizade (e no afeto) com sua vizinha de cela para manter-se saudável nos momentos em que se abandonada e traída até pela própria mãe.

Leonera, em espanhol, é o lugar onde se mantém os leões. Neste caso, as leoas são mantidas em uma espécie de creche que mistura a alegria das crianças que brincam nas grades acinzentadas da melancólica prisão. Trapero soube mesclar neste filme as criticas à sociedade e a beleza nos gestos de verdadeira amizade e amor maternal. As músicas, muitas delas com temas infantis, ajudam a completar o quadro deste retrato social que Leonera desenha em suavidade e delicadeza.

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Solitário Silêncio

9/Novembro/2008 · 3 Comentários

Mariana Franco

De cada cena de O Silêncio de Lorna emana realidade. Quase não há música, nem preocupação com belas cenas ou fotografia. Os atores não são beldades, os figurinos mal variam. Assistir ao filme é como acompanhar uma personagem vinte e quatro horas por dia, a uma certa distância, sem nada dizer e sem nada ouvir. Só observar.

lorna3O filme dos irmãos Dardenne, premiado em Cannes, aborda o contexto da luta de imigrantes do leste europeu para construir uma vida nos países mais prósperos do continente. A albanesa Lorna, bem interpretada por Arta Dobroshi, vive em um casamento falso com o viciado em drogas Claudy (Jerémie Reniér) para obter a identidade belga. Seu sonho é conseguir a nacionalidade e um empréstimo para abrir uma lanchonete e viver com seu namorado, Sokol (Alban Ukaj), que trabalha no exterior. Aliciada por Fábio (Fabricio Rongione), um negociador de casamentos falsos, o plano era supostamente o viciado morrer de uma overdose após Lorna conseguir sua nacionalidade, para que ela em seguida case-se com um russo em troca do dinheiro que precisa. As coisas mudam de rumo, entretanto, quando Claudy resolve largar as drogas e pede ajuda à mulher para isso.

Além da realidade que acompanha todas as cenas, e da questão dos imigrantes na Europa, muito comentadas as duas; o filme explora a psicologia dessa mulher. O nome dado à obra não poderia ser melhor. O sofrimento não é escancarado, acompanhado de choro e desespero, é velado, está por baixo da pele, mudo como a personagem. Tanto quanto da tela emana realidade, emana também solidão. Pequenos detalhes do cotidiano, despercebidos para muitos, são opressores para a personagem: a caixa de correspondências, sempre vazia; as ligações que recebe, sempre sobre os negócios dos casamentos, nunca um amigo ou seu namorado. Lorna é uma mulher sozinha, num país estrangeiro, sem amigos, lutando contra uma dura realidade, apoiada apenas num sonho de futuro; seu sofrimento, imenso, é encarnado pelo seu silêncio. Pior que sofrimento cheio de gritos ou lágrimas é o sofrimento mudo, solitário. E é esta solidão opressora que leva a personagem aos limites da psicologia.

Depois de assistir esse ótimo filme (apesar do final um tanto vazio, e bastante criticado) não há como não sair do cinema como a personagem: muda.

Leia mais sobre este filme: À sua resposta, em silêncio, por Márcia Scapaticio

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Novelão

7/Novembro/2008 · 3 Comentários

Victor Caputo

Orquestra dos Meninos, filme de Paulo Tiago, conta a trajetória de Mozart Vieira, interpretado por Murilo Rosa. orquestraMozart, um músico de São Caetano, uma cidade próxima a Recife, começa um projeto para montar uma orquestra com crianças pobres da cidade. Consegue alguns instrumentos e um bom local para que eles ensaiem. Tudo vai bem até que alguns problemas aparecem para complicar o projeto de Mozart, como embates com políticos e acusações de abuso de um dos alunos.

Apesar do tom leve no começo do filme, diversas críticas surgem. Primeiramente expondo o empecilho colocado por políticos da cidade, com medo de que Mozart aproveitasse sua popularidade para tomar o poder deles. É culpa destes políticos que surgem as acusações de abuso de um dos alunos.

O possível abuso sexual acaba por puxar outra crítica, que é o modo como a imprensa cobriu o caso, sem uma posição certa, a imprensa parece apenas passar o que houve, sem uma aparução, talvez com medo dos políticos. Até que um jornalista aparece e tenta ajudar Mozart.

O filme perde um pouco o ritmo e acaba esbarrando nas novelas, quando vemos atores globais, como Murilo Rosa e Priscila Fantim, protagonizando um casal dos mais sem graça e química. Somado ao clima, muitas vezes, arrastado, o filme acaba sendo algo cansativo e pouco interessante, salvo as interessantes cenas dos garotos ensaiando.

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Tristeza sob um ramo de flores

5/Novembro/2008 · Deixe um comentário

Bruna Buzzo

Inédito no Brasil, o filme Yamazakura – Cerejeira Silvestre faz parte da programação do Dia do Cinema Japonês, projeto realizado pela PlayArte Cinemas em parceria com a Comissão de Jovens da Associação para Comemoração do Centenário da Imigração Japonesa no Brasil. Um ramo de flores de cerejeira é o grande motivador deste filme, que se desenha lentamente, como uma clássica trama oriental, revelando-se aos poucos, tecendo em seus caminho críticas à sociedade japonesa, seu comportamento e costumes.

cerejeiras-silvestres1Noe Isomura (Rena Tanaka) é uma mulher que está em seu segundo casamento. Após a morte do primeiro marido, ela pôde escolher entre vários pretendentes para um casamento arranjado. Noe acaba se decidindo por Shouzaemon Isomura (Tetsuya Chiba), e preterindo o guerreiro Yoichiro Tezuka (Noriyuki Higashiyama), mais por pressões familiares do que por vontade própria. Seu novo marido preocupa-se apenas em obter lucros e a jovem acaba prisioneira de uma vida sofrida. Um dia, Noe reencontra Tezuka em um campo repleto de cerejeiras silvestres. O encontro traz mudanças que levam os dois a repensarem suas vidas.

Yamazakura retrata e crítica os costumes de um Japão não contemporâneo, mostrando mazelas que ainda hoje acometem quaisquer países pelo mundo: os grandes senhores latifundiários, a injustiça para com empregados e subalternos, a dominação e opressão com mulheres, crianças e com os mais pobres.

Tudo isso com o toque de classe que se espera de qualquer filme japonês (exclua os terrores, por favor!), uma bela fotografia e uma trilha sonora escolhida com minucioso cuidado. Apesar de ter pouco mais de uma hora e meia (99 min), o filme é um pouco arrastada e cansativo em certas partes, mas encarar o modo como Noe e Tezuka mudam suas formas de pensar e enfrentar a realidade ao longo do filme nos faz refletir sobre nossas idéias de luta contra opressão e desigualdade. Do guerreiro preso ao clã à jovem esposa ideal, Yamazakura discorre sobre a sociedade japonesa de ontem e hoje com maestria e um bom conteúdo.

Serviço:
O Dia do Cinema Japonês acontece amanhã (6) e no dia 13 de novembro, no complexo Multiplex Bristol (Center 3, Av. Paulista, 2.064, tel. 3289-0509). Serão exibidos filmes com temas japoneses como Cartas de Iwo Jima, Paixão Proibida, O Castelo Animado, Speed Racer e O Último Samurai. O ingresso custará R$5.

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O Homem Por Trás da Imagem

3/Novembro/2008 · 1 Comentário

Tulio Bucchioni

“Tentamos mostrar o homem por trás da imagem e fomos bem-sucedidos em fazer um filme sobre o ser humano em Che” declara Laura Bickford, produra do filme “Che”, que encerrou a 32ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, na última quinta-feira, dia 31.

Se apresentaram ainda para uma platéia lotada de jornalistas os atores Benício Del Toro, que vive Ernesto “Che” Guevara no longa (papel que lhe rendeu o prêmio de melhor ator no Festival de Cannes de 2008), o brasileiro Rodrigo Santoro, que interpreta o irmão de Fidel Castro, Raúl Castro, e Diego Halari, representante da Sun Distributions, empresa responsável pela distribuição do filme no Brasil.

Benicio del Toro como Che Guevara no filme de Soderberg

Benício del Toro como Che Guevara no filme de Soderberg

“Che” conta com atores de toda a América Latina e até ganhar seu formato de hoje 4 anos se passaram. Para a realização do filme, o diretor, o americano Steve Soderbergh, junto com a produtora Laura e Del Toro, viajou para a França, Argentina e Cuba, aonde foram feitos estudos detalhados sobre a vida de Che. “ Fizemos um estudo em muitas partes do mundo com pessoas que conheceram Che; esse estudo influenciou muito no filme e foi um investimento de 6, 7 anos” aponta Del Toro.

O filme foi filmado no México, em Porto Rico, nos Estados Unidos, na Bolívia e na Espanha. De acordo com Laura, trata-se de um filme espanhól que não obteve patrocínio algum dos EUA. A equipe não pôde filmar em Cuba devido ao embargo norte-americano à ilha. A produtora afirmou também que a escalação de atores foi espontânea: “atores que já conhecíamos vieram nos procurar e ao longo do processo encontramos também muitos novos atores latino-americanos maravilhosos”. Santoro entrou na equipe da primeira maneira.

O ator contou que “Che” foi um dos primeiros projetos que conheceu no exterior e logo após ter lido o roteiro se encontrou com a produtora e ficou estimulado e apaixonado pelo projeto. “ No ano passado fiquei sabendo que o projeto tinha saído, foi então que entrei em contato com a Laura novamente, passei a estudar espanhól e finalmente consegui uma entrevista com o Steve, após ter perdido a primeira entrevista de escalação de atores por motivos profissionais” conta o brasileiro. A entrada de Santoro no filme não foi tão rápida. “ Sonhei em fazer parte da equipe por 5 anos, estava disposto a fazer qualquer coisa para participar do projeto”. Foi Laura quem ajudou o ator a entrar no filme. Já havia um ator escalado para interpretar Raúl Castro, mas após tanta insistência, a produtora e Soderbergh ficaram tocados com a vontade e disposição de Santoro. “ Eu até brinquei com eles: o maior país da América Latina é o Brasil, como vocês ainda não escalaram um brasileiro no elenco?” diverte-se o ator.

E deu certo. Seu personagem, que teria apenas uma fala, terminou com várias. O processo de composição do personagem foi longo, Santoro teve 1 mês e meio de aulas de espanhól todos os dias com um professor cubano e só depois desse período viajou para Cuba. “ Realizei um sonho, fui para tentar entender a cultura, o povo, tentar entender o que é ser um cubano. Fui para passar 10, 15 dias e acabei ficando 1 mês e meio. Andei por toda a ilha e procurei manter uma pureza no olhar. Tive muito suporte das pessoas. Foi uma experiência de vida muito forte”.

Del Toro, um dos idealizadores do projeto e também produtor executivo, afirmou se impressionar com a combinação de intelectual e “homem de ação” que percebe em Che. “ Quase tudo me desafiava no personagem; Che é um produto da história da América Latina” declara o ator. Quando questionado sobre seu primeiro contato com Guevara, Del Toro declarou ter ouvido seu nome um pouco tarde. “ Nasci em Porto Rico, onde se estuda muito pouco a revolução cubana ou Che; a primeira vez que ouvi seu nome foi através de uma canção dos Rolling Stones. Os jovens não usam a camiseta de Che. Depois li uma carta de Che para sua família e a carta me comoveu muito, Che era um ótimo escritor.”

Fazendo uma possível relação entre a América Latina dos anos 60 e a atual, Laura afirmou acreditar que o sofrimento, a injustiça e a fome ainda estão presentes. “ Os valores de Che são universais e o filme tenta levantá-los; a questão é como implementá-los de uma forma diferenciada. O objetivo do filme é levantá-los novamente” diz a produtora. Sobre as filmagens na Bolívia, Laura afirmou que a experiência de filmagem foi tocante e comovente e apesar dos períodos díficeis enfrentados, em virtude do conflito entre governo e oposição no país, a interação da população com a equipe foi excelente. Discorrendo sobre o filme, a produtora conclui: “ o filme serve como uma inspiração metafórica, poética, espero que o Che não tenha morrido em vão”. “Che” chega ao circuito comercial no primeiro semestre de 2009.

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