Ricardo Azarite
Durante a coletiva de imprensa que foi concedida pela Fox Filmes do Brasil, Fernando Meirelles disse que Saramago, depois de ter chorado de emoção ao ver a produção de seu Ensaio sobre a cegueira nas telonas, afirmou que venderia os direitos de outros livros seus para o diretor gravar novos filmes.
Talvez seja apenas simpatia de José Saramago. E talvez nem seja o desejo de Fernando Meirelles – pelo que disse na coletiva, não por ora.
A produção do Ensaio foi morosa e demorou um total de dez anos: nos sete primeiros, o produtor canadense Niv Fichman e o bifuncional roteirista/ator Don McKeller adaptaram a narrativa para os formes cinematográficos e começaram a procurar pelo pessoal mais capacitado para fazer o filme; os últimos três anos foram de filmagens e produções.
Logo após da escolha de Fernando Meirelles no cargo de diretor, a boa notícia veio: 60% do custo do filme seríamos bancados por uma produtora japonesa (aí se explica a co-produção Brasil/Canadá/Japão). Os obstáculos de roteiro e produção estavam superados, mas ainda faltava um: o de atuar como as personagens no livro.
Julianne Moore, a protagonista do filme, disse que essa foi uma personagem bem difícil de se fazer. Inicialmente, achou a linguagem de Saramago fabulosa e muito lúcida, “ele descreve a relação entre os personagens de maneira bem real”. Para a atriz, encarnar o papel de uma mulher sem história é muito difícil, pois esse tom indeterminado que o livro traz deve ser passado para o espectador. “Na vida, o primeiro contato com uma pessoa não traz seu histórico, o meu julgamento será feito a partir desse indeterminado que ela é”, diz Julianne.
Por mais contraditório que possa parecer, trazer características essencialmente humanas para o cinema é uma tarefa difícil. Julianne diz que é comum, nos filmes, haver sempre o bonzinho que salvará todos do mal, mas, diz ela, “eu [se referindo a sua personagem] não sou o Batman! Não sou o salvador”. O natural, diz, é que o humano vá “gradualmente se adaptando às necessidades impostas, o que geraria, por ordem do acaso, um herói”.
Dificuldades à parte, todos os presentes na coletiva (Fernando, Alice Braga, Julianne Moore e seis produtores) se dizem honrados de participarem do filme. O diretor em especial, por ter obtido sucesso nesse que foi considerado o mais ousado filme de sua carreira, por se tratar de uma ficção de Saramago (O Jardineiro Fiel e Cidade de Deus eram “quase que documentários; com personagens mais definidos”, comenta).
Agora, depois de tanto suor para conseguir sucesso no Ensaio, Fernando Meirelles irá se dedicar a uma minissérie da Rede Globo e diz que pretende, num futuro próximo, dirigir apenas produções internacionais no cinema ou programas televisivos nacionais.

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O filme de Meirelles é competente ao transpor para a telona uma obra prima como é o livro de Saramago. Hoje em dia penso que só mesmo Meirelles é capaz de adaptar uma obra do escritor. Parece que este pensa a mesma coisa.
O triste de tudo isso é a aceitação do público lá fora. Até protestos irão acontecer, já que os cegos estadunidenses sentiram-se agredidos pela película.
Triste, muito triste!
Concordamos com você, Cecília!
Faltou sensibilidade ao público extrangeiro, como o Ricky destacou bem na resenha de Ensaio (http://cinefilosjjunior.wordpress.com/2008/09/12/ensaio-sobre-a-cegueira/)
Talvez se refletissem mais! Deve ser preguiça mental ou algo do tipo. Saramago foi demais para eles.