Depois de passar os últimos anos sendo o marido de Madonna, o britânico Guy Ritchie está de volta a tratar do submundo da máfia inglesa, seu tema preferido, em Rocknrolla – A Grande Roubada, seu primeiro filme a ser lançado depois de se separar da musa pop.
Ritchie volta aqui a utilizar o estilo que lhe deu fama na década de 1990 em filmes como Jogos trapaças e dois canos fumegantes e Snatch – Porcos e Diamantes. Além do apelo cool, se destacam a montagem rápida, a trilha sonora pop e um certo clima de cinema independente no meio dos grandes estúdios.
A história gira em torno da quadrilha chinfrim comandada por One Two (Gerard Butler), que pretende assaltar o bilionário russo Uri Omovich (Karel Roden) para pagar uma dívida com Lenny Cole (Tom Wilkinson), o chefe da máfia londrina, que por sua vez procura seu afilhado desaparecido.
A fórmula Ritchie, que mistura ação, violência e comédia é, assim, mantida. Estão lá os atores ingleses com cara de mau, fazendo pose para a câmera e soltando piadas e tiradas sarcásticas no melhor estilo britânico. A fotografia em tons urbanos mantém a tradição, mas o destaque maior é a ótima trilha sonora recheada de rock. Passando desde o clássico The Clash até os suecos do The Hives, ela traz boa parte do chamado rock independente entre a década de 1960 e hoje.
Para todos os efeitos, Rocknrolla é uma espécie de mais do mesmo que deve agradar os fãs, já que traz a assinatura clara de Ritchie, marcando quem sabe uma volta à seu estilo depois de algum tempo. Por outro lado também dará mais munições aos críticos, que consideram o inglês uma versão sem graça e com sotaque de Quentin Tarantino.
Rocknrolla – A Grande Roubada (Rocknrolla)
Inglaterra, 2008
Direção: Guy Ritchie Elenco: Gerard Butler, Tom Wilkinson, Thandie Newton, Mark Strong, Toby Kebbel.
JFK – A Pergunta que Não Quer Calar, do diretor Oliver Stone, foi um dos mais polêmicos filmes políticos já lançados até hoje. Tanto que foi incluído em quinto lugar na lista dos 25 filmes mais controversos de todos os tempos, feita pela Enterteinement Weekly em julho de 2006.
O assassinato de John Kennedy, ocorrido em 22 de novembro de 1963 deixou muitas dúvidas pairando no ar. Dúvidas que perduram até hoje. O presidente desfilava numa limusine conversível pelas ruas centrais de Dallas, Texas, quando foi atingido por dois tiros, vindos supostamente das janelas do sexto andar de um depósito de livros da rua. As investigações oficiais, cercadas de mistérios e fatos não esclarecidos, concluiu que o assassinato foi obra solitária de Lee Harvey Oswald, militar, na época desempregado, simpatizante do comunismo e desequilibrado mental. A maioria da população americana, entretanto, até hoje não acredita nessa versão dos fatos.
Lee Oswald na foto supostamente manipulada pela revista Life
Diversas teorias conspiratórias foram desenvolvidas paralelamente à oficial, e são elas que ganham espaço sob os holofotes no filme de 1991, quase três décadas depois do ocorrido. Stone baseou-se nos livros Crossfire: The Plot that Killed Kennedy, de Jim Marrs, e On The Trail of the Assassins, de Jim Garrison; utilizando ainda o trabalho de mais 24 pesquisadores. Com todo esse material construiu uma narrativa que engloba diversas teorias pelo olhar de Garrison, promotor judicial que, sozinho, com uma pequena equipe, promoveu investigações sobre o caso.
Diz-se do diretor, que sempre teve uma preferência por temas polêmicos, que teria grande admiração por Garrison e pelo trabalho que fez. As polêmicas circundaram o filme desde o início das gravações.
Para interpretar Jim Garrison, primeiramente cogitou-se Harrison Ford e depois Mel Gibson, mas ambos recusaram o papel devido ao envolvimento político do filme. Só então chegou-se a Kevin Fostner. Curiosamente, o verdadeiro Jim Garrison também participa do filme, interpretando o juíz Earl Warren.
Kevin Costner
O verdadeiro Jim Garrison
Na época da estréia, diversas revistas influentes, como “Time”, “Life”, “Neewsweek”, e a brasileira “Veja”, dedicaram ao diretor e ao filme reportagens de capa.Grande parte dos comentaristas políticos dos EUA acusaram Stone de mentir deliberadamente, apresentando como verdade uma série de boatos jamais comprovados.
A onda de acusações foi tão forte que o diretor admitiu até não descartar a possibilidade de atentado contra ele. Devido a tantas controvérsias, a viúva de Kennedy, Jacqueline Onassis, assim como a maior parte do clã Kennedy, declarou que não assistiria ao filme.
Apesar disso tudo, o filme apresentou uma espécie de “verdade emocional”, como definiu o crítico de cinema Roger Ebert, dando ao público norte-americano o que as investigações oficiais não conseguiram: respostas. Qualquer pesquisa popular feita hoje confirmaria que a maioria da população acredita mais na versão de Oliver Stone do que no resultado oficial.
A versão da obra exibida nos cinemas teve 189 min, mas a versão do diretor, que temos disponível em DVD, conta com 206 min; e as edições duplas contam ainda com 55 min de cenas extras. Foram utilizadas na composição diversas técnicas de filmagem, e também cenas reais. O vídeo amador feito por Abraham Zapruder, que flagra o exato instante do assassinato, foi utilizado diversas vezes durante o filme.
A caixa do DVD comercializado aqui vem com uma declaração e Oliver Stone, em que ele enfatiza a necessidade de mudança e da busca pela verdade. Nos créditos do filme, ele é dedicado aos jovens, que conhecerão, em 2038, quando os arquivos sigilosos do caso forem abertos ao público, a verdade do mistério JFK. Nas palavras do diretor, o passado é apenas um prólogo do que está por vir.
Em destaque, as belas paisagens da Inglaterra, os figurinos e perucas e a ousadia de uma das mulheres mais influentes da sociedade inglesa do século XVIII. A Duquesa (The Duchess), filme estrelado por Keira Knightley, retrata a vida de Georgiana Cavendish, a Duquesa de Devonshire, suas desventuras familiares e amorosas, seu envolvimento com a política e, como contexto e pretexto para a ação principal, a Inglaterra, seus costumes e conservadorismos.
Aos 17 anos, a jovem e bela Georgiana casa-se com Sir William Cavendish, 5º Duque de Devonshire (Ralph Fiennes), um homem seco e distante cujo único interesse no casamento é ter um herdeiro. Os castelos da Inglaterra oprimem a moça dentro de casa, que tem uma relação fria e distante com o marido, e a glorificam nos salões da nobreza onde brilha com seu encanto e os belos vestidos.
Inspirado na biografia da Duquesa, o filme retrata a vida de uma socialite à frente de seu tempo: no final do século XVIII, Georgiana apoiou o Partido Liberal em comícios públicos apesar das mulheres não terem direito de voto na época, além de desafiar as convenções sexuais e matrimoniais. Tendo demorado para ter um filho homem, a distância em seu casamento só fez aumentar, chagando ao ponto de William se envolver com a amiga de sua esposa, Lady Elizabeth Foster e viverem os três sobre um mesmo teto. À traição do marido, a duquesa respondeu no mesmo tom, apesar de não guardar mágoas do esposo com sua amante.
A fotografia dos belos campos e castelos da Inglaterra, aliada aos figurinos desta superprodução, disfarçam a má interpretação de Keira Knightley no papel principal, que parece interpretar sem o mesmo papel em filmes de época (como em Orgulho e Preconceito ou Desejo e Reparação). Já o britânico Ralph Fiennes brilha em sua interpretação do cruel duque e nos faz esquecer de sua simpatia, convencendo o espectador da crueldade e frieza do nobre William. Keira, aqui, só não é pior que a falsa barriga com que tentaram envelhecer Fiennes.
Serviço
Na 32ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, o filme passa pela última vez nesta quarta-feira, dia 29, às 13h, na sala 1 do Reserva Cultural.
No final do século 19 nasceu na periferia de Londres um dos principais nomes da história do cinema. Filho de uma atriz, Charles Spencer Chaplin estreou nos palcos com apenas cinco anos, para substituir a mãe que havia passado mal. A partir de então construiu uma ascendente carreira, primeiramente em musicais londrinos, depois como comediante nos EUA. Foi lá que encontrou o cinema e fez história.
Filho das classes baixas britânicas que emigrou para os EUA no início do século, Chaplin começou a se destacar na tela grande ao criar o personagem “Carlitos, o vagabundo” (“Tramp” no original) em 1914, para sua estréia nas telas no curta Making a Living. Logo depois passaria também a escrever, dirigir e produzir seus filmes, em geral utilizando o humor baseado em Carlitos.
Chaplin estreou na direção de longas com O Garoto, de 1921. A partir daí fez clássicos como Em busca do Ouro e O Circo, com os quais passou a ser reconhecido como um grande autor, sempre utilizando o famoso vagabundo. Com isso passou a integrar o grupo pioneiro que chegou ao cinema enquanto este se consolidava como arte, participando da construção da linguagem cinematográfica.
Muitas vezes, porém, as comédias de Chaplin, possuíam, além da incrível capacidade de fazer rir, críticas que vão muito além do simples humor. Foi assim com Tempos Modernos, seu clássico de 1936 que criticava a alienação e a exploração do operário frente ao capitalismo industrial do início do século 20.
Foi a partir daí que começou a ser investigado por autoridades americanas, acusado se der comunista. Para piorar sua situação ele ainda enfrentava problemas com executivos dos estúdios, que desde 1927 o pressionavam a utilizar o som em seus filmes, coisa que Chaplin se recusava a fazer.
Apenas em 1940 o inglês deu o braço a torcer. O resultado foi a comédia O Grande Ditador, o primeiro filme a denunciar as atividades da Alemanha nazista, com direito a um histórico monólogo final, um discurso em defesa dos direitos humanos feito em plena segunda guerra.
Cheio de problemas com o Comitê de Atividades Antiamericanas, o órgão do governo dos EUA que perseguia comunistas, o trabalho de Chaplin passou ararear. Fez apenas mais dois filmes antes de fugir dos EUA para evitar problemas com o governo, alem de mais dois depois de sua chegada a Europa. O cinema, porém, já tinha ganhado seu punhado de clássicos. Chaplin não precisava fazer mais nada.
De volta à telas de cinema, o diretor Wim Wenders apresentou Palermo Shooting ao público da 32ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. Seu novo filme é um tributo a dois grandes mestres do cinema: Michelangelo Antonioni e Ingmar Bergman, que morreram no mesmo dia, em 30 de julho de 2007, e antes do término das filmagens de Palermo.
O filme tem como personagem principal um fotógrafo, assim como Depois daquele beijo, 1966, de Antonioni, que irá de encontrar com a Morte, tal qual o cavaleiro de Bergman em O Sétimo Selo, de 1956. Finn Gilbert (Campino) é um fotógrafo e professor universitário que vai à pequena cidade de Palermo, na Itália, em busca de calma e sentido para a vida vazia que leva na Alemanha.
No ápice de suas insônias e confusôes mentais, Finn sofre um acidente que poderia tê-lo matado e começa a repensar sua vida e o que fez dela até então. Usando um ensaio fotográfico como pretexto, vai à Palermo para longas férias. Ali, o fotógrafo se encontra com a Morte diversas vezes durante o desenrolar da trama. Em seus passeios pela pequena cidade, fotografa o interessante à sua volta, é evitado por uma tímida ovelha e conversa com uma fotógrafa que retrata a morte e a transitoriedade das cenas, objetos e pessoas.
Ainda dominado pela dificuldade em dormir, Finn adormece em um local público e é desenhado por Flavia (Giovanna Mezzogiorno), uma moça que trabalha na restauração de um quadro no Museu de Arte da cidade. O jovem acredita estar sendo atacado por um arqueiro que deseja matar-lhe e confia sua história à Flavia, única a acreditar no rapaz devido ao longo contato com o quadro “O Triunfo da Morte em Palermo”, que retrata justamente a morte, sem face, como cavaleiro(a) e arqueiro(a).
Mais dinâmico que outros filmes de Wenders, Palermo Shooting reflete sobre os valores que atribuímos à vida e morte, esta última sempre vista como vilã, sobre a fotografia, as novas tecnologias e a sociedade da imagem na qual vivemos. Em algumas cenas, a citação a pensadores como Jorge Luis Borges e José Saramago é bastante clara e Wenders defender muito bem suas idéias nas falas de seus personagens.
A fotografia e a trilha sonora merecem destaque a parte: Finn é viciado em fones de ouvido e, em muitas cenas, a música pára, aumenta ou abaixa de acordo com a atitude do fotógrafo em relação aos fones. A escolha das músicas também foi muito bem pensada, harmonizando com a velocidade ou não das cenas. A grande maioria deste longa se desenvolve em tons escuros. No campo, mais calmo e próximo de Flavia, a fotografia abre para lindas cenas da paisagem italiana, em oposição ao cinza da Alemanha em que o jovem Finn vivia.
Na Mostra de Cinema de São Paulo, o filme será exibido pela última vez hoje (27), às 19h50, na sala 2 do HSBC Belas Artes (R. da Consolação, 2.423, tel. (11) 3258-4092). O ingresso custa R$7 e vale a fila!
“Cidade de Deus” e “Tropa de Elite” são dois filmes da safra recente dos nacionais que mostram a pobreza urbana. Se eles são abrangentes e abordam uma questão social vista como um todo, “Última Parada 174”, filme de Bruno Barreto, que estréia hoje nos cinemas, parece abordar uma mesma questão social vista na pele de um personagem – Sandro (Michel Gomes) – e não num “apanhado geral”.
A temática não é nova no cinema brasileiro, e a tendência, pelo que parece, é que continue sendo freqüente na safra de filmes nacionais. Um sinal disso é a escolha do governo para que o filme seja o representante do Brasil nas disputas pelo Oscar. Segundo o próprio diretor, os festivais internacionais têm valorizado essa temática da pobreza – “é o que se espera do Brasil”, disse, em exibição fechada do filme.
A idéia de fazer o longa veio depois de Barreto ter assistido ao documentário de José Padilha, “Ônibus 174”, sobre o famoso caso do seqüestro de um ônibus no Rio de Janeiro por um jovem (Sandro). Barreto disse ter ficado muito impactado ao ver o documentário e muitas perguntas teriam surgido em sua mente. E é no longa ficcional, baseado em fatos da vida de Sandro, que o diretor tenta respondê-las. Segundo ele, “a ficção tem a necessidade de ser muito mais verossímil que a realidade”.
Em “Última Parada 174” podemos ver uma série de fatos infelizes acontecerem na vida de Sandro, que, passa, entre drogas e delitos, passa o filme em busca da mãe, em direção à catarse final: o seqüestro do ônibus. Cenas de violência, que impactam, permeiam o longa, o que fez com que ele fosse, da carreira de Barreto, o mais difícil de conseguir financiamento.
O diretor afirmou que tentou revelar a “condição humana” e não “social” no filme. Apesar disso, “Última Parada 174” parece cambalear entre essa história mais humana (da procura de uma mãe pelo filho e de um filho pela mãe) e mais social (a condição de miséria em que vive o protagonista) – ainda que não dê para fazer uma separação clara entre essas vertentes.
Os atores têm boa atuação, com o protagonista, Michel Gomes, que trabalhou em “Cidade de Deus”. Gomes tem uma atuação bastante verossímil, sobretudo em suas falas, com gírias da periferia e trejeitos que convencem e tem boa consonância com a atriz , que faz personagem por quem Sandro se apaixona – e expõe seu lado mais “humano”.
O roteiro do filme é de Bráulio Mantovani, que já trabalhou na escrita de “Cidade de Deus”, “Tropa de Elite” e “Linha de Passe” – filmes da mesma temática do longa de Barreto. Apesar disso, “Última Parada 174” não mostra o primor do roteiro dos “colegas”. Falta novidade no longa, que seria só mais um filme de pobreza urbana não fossem os fatos reais nos quais é baseado. “Última Parada 174” serve, talvez, para fazer com que o público se acostume cada vez mais com a violência urbana.
Assistir ao novo longa dos irmãos Coen nesta 32ª edição da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo não foi tarefa fácil. Super badalado, o filme lotou as salas de cinema em todas as exibições que teve até agora (fato que deve se repetir em sua última exibição na Mostra, que acontece amanhã (24)). Queime depois de Ler(Burn after reading – intelligence is relative) é garantia de sucesso para os diretores, boas risadas para o espectador e vale todas as filas que você enfrentará se quiser vê-lo antes de sua estréia nos cinemas brasileiros, prevista para o dia 28 de novembro deste ano.
O enredo usado para o longa poderia cair em um filme qualquer de ação, bandidos e policiais que você já viu tantas vezes, mas não nas mãos desta dupla de diretores e roteiristas. Segundo algumas sinopses, este filme retrata um ex-agente da CIA que começa a escrever suas memórias com importantes detalhes sobre a agência e a ação se desenrola no momento em que as informações caem nas mãos de “dois inescrupulosos funcionários de uma academia de ginástica que tentarão ganhar com isso, vendendo as informações.”
Uma sinopse assim afasta qualquer espectador! Olhando de maneira simplista é exatamente isto que ocorre no filme, com o detalhe de que os tais funcionários da academia não são nem espertos, nem malvados o suficiente para serem tachados de inescrupulosos. Suas atuações (e não só dos atores, mas o papel que os personagens representam) são mais cômicas do que qualquer outra coisa. Estes são Linda Litzke (Frances McDormand) e Chad Feldheimer (Bras Pitt), o núcleo desencadeador de toda a ação que gira em torno da atrapalhada perseguição destes dois ao ex-agente Osbourne Cox (John Malkovich, em ótima atuação).
Queime depois de Ler é, antes de qualquer outra coisa, um retrato da sociedade dos EUA e das paranóias que o povo norte-americano criou e com as quais ele não sabe lidar. Muitas destas paranóias não dizem respeito apenas a um fator local, mas são perceptíveis em qualquer país, o que permite ao filme extrapolar as fronteiras de sua língua e localidade, para levar a uma reflexão de fatores globais como o terrorismo, as bipolaridades políticas, a busca pela beleza a qualquer custo, a segurança e as liberdades individuais.
Toda a trama começa por que Linda, uma moça que se acha feia, quer fazer cirurgias de alto custo que seu convênio não cobre. Em sua busca desesperada pela verba necessária à realização de seu plano de beleza, ela envolverá desde seu inocente e caricato amigo Chad até o paranóico Harry Pfarrer, agente de segunrança brilhantemente interpretado por Georgie Clooney.
Da inocência de Linda e Chad aos inescrupulosos agentes da inteligência nacional norte-americana, Ethan e Joel Coen construíram um retrato que se assemelha a Onde os Fracos não tem vez. Com bom humor, ironia e uma pitada de maldade, o espectador se vê na tela e pode questionar as mazelas de uma sociedade decadente e em busca de um rumo para o futuro.
Nota: a estréia do filme em São Paulo foi confirmada para o dia 28/11/2008, em grande circuito.
Na década de 40, o cinema norte-americano produziu um gênero inédito, marcado pela modernidade, pela força da realidade urbana e pela ambivalência da natureza humana. O film noir foi uma estética cinematográfica caracterizada pela indistinção entre o bem e o mal, pela crítica feroz ao establishment e pela desilusão quanto à bondade humana. Naturalmente, a eterna guerra entre os sexos também adquiriria conotações neo-hobbesianas no film noir: homens e mulheres revelam-se perfeitamente talhados para se destruírem mutuamente em sagas sanguinolentas de pura ambição e vilania. Por todos estes motivos, o film noir foi a vitrine de uma América profundamente perturbada.
Em larga medida, a estética noir, que fez do suspense sua matéria prima principal, manifesta um caráter insuspeitadamente musical e algumas melodias tornaram-se elementos paradigmáticos de inúmeras obras do gênero. Os temas de erotismo e de degradação sexual permeiam as letras da maioria das canções nem sempre de forma implícita. Tais músicas celebram a experiência erótica esvaziada de culpa e exaltam a livre sensualidade física dispensando todas as demais complexidades do amor. Ainda assim, a despeito da sugestão subliminar de promiscuidade nas canções do film noir, não há nelas traços de nenhuma vulgaridade barata posto que, em inúmeras obras, elas foram interpretadas pelas maiores divas cinematográficas de Hollywood. Na década de 40 e de 50, dando voz às sensuais melodias do film noir mediante as damas fatais (as célebres femmes fatales do cinema negro), a cinematografia estadunidense marcou uma fronteira definitiva entre o erotismo estético e a mera pornografia.
No film noir, a mulher sexualmente emancipada converte-se numa fonte de problemas terríveis para o homem. A guerra entre os sexos é desnudada com certo sarcasmo impessoal pelas femmes fatales nos seus números musicais. É o caso Jacques Press em Alma Torturada (This Gun for Hire de Frank Tuttle, 1942) interpretada pela loura acetinada Veronica Lake.
Nesta canção, a glamurosa estrela, numa performance que envolve vários truques mágicos de desaparecimento de objetos, aconselha àqueles que já enxergaram a luz do amor nos olhos de uma mulher a ficarem atentos, pois, de uma hora para a outra, tudo pode desaparecer: “that’s love…”
No gênero noir, os ambientes exóticos do Terceiro Mundo podiam se transformar em cenários tão expressivos quanto os becos escuros das grandes metrópoles norte-americanas. Em Macau (Macao, de Josef von Sternberg, 1952), Jane Russel apresentou para uma impassível platéia chinesa o número You Kill Me de Jule Styne e Leo Robin descrevendo quase explicitamente o clímax sexual da paixão carnal em versos como “você me nocauteia, você me deixa louca, você me dá arrepios, você me mata e me mantém tão viva”.
Lauren Bacall sugere um erotismo mais subliminar na encenação de How Little We Know de Johnny Mercer e Hoagy Carmichel (o qual acompanha a atriz ao piano) em Uma Aventura na Martinica (To Have or Have Not, de Howard Hawks, 1944), descrevendo a paixão como algo que “talvez seja mesmo deste jeito, talvez dure penas um dia: nós sabemos tão pouco…”.
Os filmes caracteristicamente noir estrelados por Rita Hayworth eram, em sua maioria, thrillers e dramas tropicais. À obscuridade noir, foi adicionado o tempero latino com resultados bastante variáveis. Deitada sensualmente no convés de um iate sob a luz do luar, Hayworth evoca uma fragilidade transcendente na canção Please Don’t Kiss Me de Allan Roberts e Doris Fisher em A Dama de Shangai (The Lady from Shangai, de Orson Welles, 1948).
Seguindo a tradição do film noir, esta fragilidade irá se revelar extremamente ambígua. Hayworth volta aos trópicos com mais duas performances musicais no rotineiro Uma Viúva em Trinidad (Affair in Trinidad, de Vincent Sherman, 1952). O número The Trinidad Lady, composto por Lester Lee e Bob Russel parece involuntariamente cômico, mas a canção que descreve uma mulher a qual faz o coração dos homens disparar quando com ela adentram num quarto éperfeitamente compreensível quando esta mulher se trata da própria Rita Hayworth. Neste mesmo filme, aliás, Rita encenou I’ve Been Kissed Before de um modo exuberante, narrando a vasta experiência da protagonista em assuntos amorosos. Foi, no entanto, ao encarnar a personagem-título de Gilda (Gilda, de Charles Vidor, 1946), uma mulher surpreendentemente disposta a trair seu marido para enciumar o amante eventual de ambos (tanto dela quanto do marido), que Rita Hayworth alcançou a imortalidade cinematográfica. Seus dois números musicais neste filme pervertido e brilhante converteram-se em momentos iconográficos da Sétima Arte. Se, em Amado Mio, também de Doris Fisher e Allan Roberts, remanesce a vaga insinuação de um convite para um encontro sensual, nada de vago subsiste no número Put the Blame on Mame, cujos versos descrevem uma mulher que arrasta tudo e todos sob o signo de seu irresistível apelo sexual enquanto Hayworth performava um dos mais célebres strip-teases cinematográficos.
As canções sensuais trouxeram um contraponto essencial à dureza dos dramas de ambição e sordidez e tornaram mais palatáveis os brutais assassinatos a sangue frio do gênero noir. Na sensualidade da melodia das femmes fatales, o film noir encontrou uma parte integral de sua própria essência.
Co-produção franco-romena, Como Eu Festejei o Fim do Mundomostra a decadência e o declínio do regime comunista na Romênia. Sob uma ótica diferente dos filmes com essa mesma proposta, aqui a análise parte dos personagens, de seus desgostos e aflições pessoais provocadas e oriundas da política nacional.
Eva (Doroteea Petre) é uma estudante comum que, por culpa do namorado – e vizinho – Alex (Ionut Becheru), acaba sendo expulsa do colégio em que ambos estudam. Alex quebra um busto do presidente Nicolai Ceausescu no colégio e seu pai policial, contrariando pedidos do menino, não isenta Eva de punições.
Os pais da menina acreditam que ela não deveria desprezar Alex, pois sua relação com ele os ajuda, e condenam a filha quando ela começa a se envolver com Andrei (Cristian Vararu), um novo vizinho considerado capitalista e colega na nova escola, que mais poderia ser considerada um reformatório.
Este cenário cotidiano estrutura e apresenta o final dos anos 80 de modo escuro e sombrio: a fotografia foca as casas e os ambientes com pouca luz, a Romênia é mostrada aqui como um país nebuloso e triste. O roteiro nos fala de como essa neblina parece penetrar na alma dos personagens, influenciando e direcionando suas vidas. Eles ganham brilho na atuação dos jovens atores que formam o núcleo principal da trama.
A grande atração deste filme, porém, é o irmãozinho de Eva, Lali (assim apelidado pela irmã), que faz planos de derrubar o presidente Ceausescu, sonha com barcos e vive gripado. O menino – brilhantemente interpretado pelo novato Timotei Duma – reflete a indignação crescente da população para com o socialismo e a esperança de mudanças próximas. Por si só, já valeria a pena.
O “Silêncio de Lorna” é um dos filmes que compõe a 32ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. Dirigido pelos irmãos Jean – Pierre e Luc Dardenne possui uma abordagem ácida da condição humana, falando mais alto, nesse caso, a questão dos imigrantes, representados por Lorna (Arta Dobroshi) em sua busca pela cidadania belga. O que podemos sacrificar em nós e nos outros para conseguirmos algo? O comportamento de Lorna perante as situações e a música de encerramento do filme talvez tragam luz à discussão, porém, o seu final torna confusa a nossa experiência como espectador da obra.
Inserir a contrastante vivência do imigrante a seus limites pessoais é uma das chaves narrativas, não há como representar o próprio desejo quando se está submetida aos mandos e desmandos dos verdadeiros donos da vontade; nenhum sentimento de Lorna é considerado e os seus parceiros de cena são absorvidos por isso. A personagem é chamada muitas vezes durante o filme, ouve-se: “Lorna!”; “Lorna?”, e a resposta possível é o silêncio, a única atitude é obedecer.
O modo de filmar com a câmera fechada, centrada nas ações dos personagens, reforça o sentimento de estar sem saída. Resta agir e não contestar. Das cenas, não se exige emoção, contudo, quando ela se faz, é em seu caráter mais extremo. Todos esses detalhes e nuances podem dificultar a aceitação do filme ou provocar um desejo de que ele vá além, entretanto, é essa a proposta oferecida pelos diretores e, assim como Lorna, o espectador pode escolher entre “dar o silêncio” ou “dar a resposta”. Para tal, basta aceitar o desafio e conferir a sessão.